Portuguese poem
Canto dos corsarios
by Vicente de Carvalho (1866–1924)
O’ vasto mar perdido no horizonte, Movel planicie onde em tumulto as vagas O alvo lençol de espumas dezenrolam!
Por sobre a tua solidão sem termos Nossa bandeira, simbolo da força, Paira com vôos triumfantes de aguia.
O’ mar, dezerto palpitante e enorme, Patria de nossas almas erradias!
Sobre teu dorso movediço corre Nossa vida selvajem, repartida Entre o furor sangrento das batalhas E os descuidos da paz no mar varrido; Entre o raivar dos temporais desfeitos E o preguiçar das longas calmarias... E sempre, á vista de infinitos ermos, O imenso orgulho de sentir-nos fortes, O altivo gosto de saber-nos livres...
Certo não podes tu, mizero escravo Que empalideces ante o horror das ondas Batidas do tufão; nem tu, por certo, Crapulozo fidalgo esmorecido Ao pezo das orjías; — compreendel-as As emoções com que sacodem a alma Os perigos da luta; nem sentil-o, O capitozo encanto desta vida Passada entre as procelas rugidoras Nas brutas contorções do mar sanhudo...
Aos caprichos do vento entregue o rumo, Velas abertas como grandes azas, Proa cortando as aguas em tumulto,
Assim vogamos, nómades e livres, Pela infinita solidão dos mares — Chão movediço onde nem ficam pégadas...
Que é que buscamos? O perigo e a luta; O estrondo, o fumo, a gloria das batalhas, O sibilar sinistro dos pelouros, O coriscar das laminas de espada; E os grandes golpes de que o sangue espirra, E sobre os ais planjentes dos que morrem O trovejar dos cantos de vitoria!
A morte, vista frente a frente, a meio Da aceza furia do combate, certo Assusta o mole coração dos fracos, Descóra o rosto anciozo do cobarde... A nós, porém, aviva o sangue e os olhos, Enrija o coração, dá força ao braço.
Não tememos a morte que afrontamos Cantando e rindo no fragor da luta, Lutando a braços com o furor das ondas.
Si tantas vezes de tão perto a vemos! Vemol-a tal qual é, tal qual se mostra: Continuação do descuidado sono Que dormimos depois de uma batalha, Os fatigados membros descançando Sobre os trofeus sangrentos da vitoria... Nela, um dia, por fim, descançaremos Sobre os louros da vida...
E é bom, e é belo Nas derradeiras convulsões, morrendo, Matar, vencer ainda! E, como a rocha Que se despenha do alcantil de um morro Róla arranhando o chão, lascando troncos, Para a sombra do abismo onde se afunda Arrastando um cortejo de destroços; Assim, é belo sucumbir lutando, Morrer vibrando um derradeiro golpe, E, ao cair, arrastar na propria queda, O corpo e a vida do inimigo morto!
Pois cumpre-nos morrer, pois que devemos Pagar um dia esse tributo ao nada, Venha quando quizer a incerta morte: Nós, sem medo, esperamol-a a pé firme.
E é bem melhor a morte quando fere De chofre, em cheio, o peito de um valente Do que quando se achega rastejante Do solitario leito de um enfermo.
Emquanto o enfermo, estenuado e pávido, Gota a gota distila o fel da vida E suspiro a suspiro o alento ezala, Num largo sopro e num arranco heroico Nossa vida se esvái, e nosso espirito O vôo eleva para a eternidade.
Do que inutil morreu no fôfo leito — Escravo sempre — o livido despojo Na estreita cova ficará cativo Té que o liberte a lama, apodrecendo-o.
A nós, quando caimos, na surpreza De um belo golpe, de uma bala rapida, Na gloria do combate, na apoteóse Dos clarões da metralha; a nós, vencidos, Como rubra mortalha, o proprio sangue,
Por sepultura, o seio azul do oceano, Por adeus e oração, estas palavras Dos que deixámos sobre as ondas: Bravos, Eles morreram como os bravos morrem!