Versos Portuguese Vicente de Carvalho Canção

Portuguese poem

Canção

by (1866–1924)

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Quando passas, bem amada, — Clarão, perfume, harmonia — Raia o sol e rompe o dia Na minh’alma deslumbrada.

E, vendo-te, ó meu suplicio, Tenho a vertigem imensa De uma criança suspensa Na borda de um precipicio.

Como um sonambulo errante Que vae pela noute fóra Vendo ao luar hesitante Vagos prenuncios de aurora,

No olhar com que nem me fitas, Noute, noute sempre escura — Cheio de ilusõis bemditas, Sonho auroras de ternura.

Quando acaso me acontece Ouvir-te a fala suave, Enlevado, me parece Que a vida é um gorjeio de ave.

Nesta tristeza em que eu ando Tua voz canta em minha alma Como um rouxinol cantando Dentro de uma noute calma.

Passas, e eu vejo-te; falas E ouço-te a voz: e esse pouco Enche de esplendidas galas Toda a minh’alma de louco.

Mas vais-te — e vai-se comtigo Tudo quanto, num momento, A minh’alma, esse mendigo Sonhou num sono ao relento...

Sómes-te como se apaga O sol envolto na bruma, Ou como o floco de espuma Que nasce e morre com a vaga;

E eu, estatico e tristonho, Embebo o olhar no teu rastro... O’ tu que vens como um astro, O’ tu que vais como um sonho!