Versos Portuguese Vicente de Carvalho Adormecida

Portuguese poem

Adormecida

by (1866–1924)

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Ela dormia... Sobre o alvor do leito Dezenhava-se, esplendida mirajem, Seu lindo corpo, escultural, perfeito.

Encrespado das rendas da roupajem, Seu seio brandamente palpitava Como a lagôa no tremor da arajem.

Sôlto, o cabelo se dezenrolava Sobre os lençoes, em plena rebeldia, Como um revolto mar que os alagava.

Como no ceu, quando desponta o dia, A aurora raia, de um sorrizo a aurora Pelo seu meigo rosto se espandia.

E ela dormia descuidada... Fóra, O mar gemia um cantico planjente Como uma alma perdida que erra e chora.

Um raio de luar, branco e tremente, Pela janela mal cerrada veiu Entrando, surda, sorrateiramente...

Ia beijal-a em voluptuoso anceio; Mas, ao vel-a dormindo entre as serenas Ondas daquele sono sem receio,

Hesitou em beijar-lhe as mãos pequenas, E humildemente, e como ajoelhando, Beijou-lhe a fimbria do vestido apenas...

E o lindo quadro, estatico, fitando, Senti não sei que mistica ternura Por toda a alma se me derramando

Porque ácima daquela formozura Do corpo, os seus quinze anos virjinais Envolviam-lhe a anjelica figura Na sombra de umas azas ideais.