Portuguese poem
A voz do sino
by Vicente de Carvalho (1866–1924)
arde triste e silencioza De vila de beira-mar: Uma tarde cor de roza Que vai morrendo em luar...
Ao lonje, a varzea scintila De uns restos de sol poente; Mas, por sobre toda a vila — Do morro a que fica rente Desce uma sombra tranquila — E anoitece lentamente.
Não aparece viv’alma.
Nem rumor da natureza, Nem éco de voz humana Perturba a infinita calma, A solitaria tristeza Da pobre vila praiana.
Nem se ouve o mar, lonje, e manso.
A tudo, em redor, invade Um ar de mole descanso...
Silencio... Imobilidade...
Como que, interrompida, A correnteza da vida Fez neste ponto um remanso.
De subito, rumoreja Violentamente o ar: Na torrezinha da igreja Rompe o sino a badalar.
Ponho-me, atento, a escutal-o: Que diz, alto e repentino, Esse bater de um badalo Num sino?
Badalo que assim badalas No sino que assim resoa, Aves, já nenhuma voa: Dormem; e vais acordal-as Á toa...
Vais espantar quanta moça Ahi pelos arredores Depois de um dia de roça, De enxada e de soalheira, Dedica a tarde lijeira A tarefas bem melhores:
Pelas discretas beiradas De alguma fonte; fiadas Na proteção pitoresca De ramagens, folhas, flores; Que fazem elas? Coitadas, Bebem, nas mãos, agua fresca... Lavam as caras tostadas.. Ou cuidam dos seus amores..
Badalo que assim badalas No sino que assim resoa, Olha que vais espantal-as Á toa...
Badalas. E eu que te falo Não sei e nem imajino Que pretendes tu, badalo, A bater, bater no sino.
Talvez convoques á ceia Pescadores que, lidando, Nem viram que entardeceu; Algum se estendeu na areia A descansar; sinão quando, De cansado adormeceu...
Badala-me assim, badala: Esperta este dorminhoco; Que ou ele, acordando, abala, Ou fica dormindo — e em troco Da sua madraçaria, Chegando á caza atrazado Acha no fogo apagado A caldeirada já fria.
Badalo que assim badalas No sino que assim atroa, Porque é que tão alto falas Á toa?
A andar com menos demora Talvez tua voz compila Certo rei dos mandriões Encarregado em má hora De, nas trez ruas da vila, Acender os lampeões..
Chamas, talvez, ao seu posto. Quem? algum camaroeiro Retardado e mal disposto A seguir para o pesqueiro?
Badala-lhe que é sol posto, Que a luz cheia está fóra, Que, com pequena demora, Vai a maré a vazar: Para chegar á costeira Tem ele uma legua inteira De caminho a caminhar, Vencendo-a de combro em combro, De atoleiro em atoleiro, Com o remo e o puçá no hombro E, na mão, o candieiro.
Ruidozo sino da vila! E é por couzas tão vulgares Que atroas assim os ares De uma tarde tão tranquila?
adalo que assim badalas... Que voz de repente soa Acompanhando-te as falas Á toa?
E’ voz de gente que canta... De gente... E parece tanta...
Da humilde igreja irradia E para o ceu se alevanta A reza da Ave, Maria.
As vozes e as badaladas Confundem-se... Misturadas No fervor da mesma prece, Sóbem juntas para o ar Onde a lua resplandece E a noute, imensa, parece Feita do alvor do luar.
Sobre a soleira da porta Da caza pegada á minha, Vejo sentada a vizinha: Moça, e bonita. Que importa?
Tem nos braços o filhinho; Fala-lhe, toda carinho; Ele ouve; sorri; depois, Responde-lhe, balbucia... E, de mãos postas, os dois Murmuram a Ave, Maria.
Ante meus olhos perpassa Uma vizão: imajino Maria, cheia de graça, Jezus, louro e pequenino.
Uma tarde cor de roza. Uma vila assim modesta, Assim tristonha como esta... De pescadores, tambem... Sobre a planicie arenoza Por onde o Jordão deriva Pouza a sombra evocativa Das montanhas de Sichem...
Á porta de humilde choça, Uma mulher... Quem é ela? É pobre... é joven... é bela... E é Mãi: comovida, a espaços O seu sorrizo se adoça O seu olhar se ilumina Para a figura divina Do filho que tem nos braços.
Mostra-lhe, á noute que estréla O ceu e que a terra ensombra, Como a terra é toda sombra, Como o ceu é todo luz... E o filho, enlevado nela, Em extaze balbucia. A primeira Ave, Maria Quem a rezou foi Jezus.
Sigo o meu sonho... Imajino Que, por todas essas roças Aonde chega a voz do sino,
A sombra triste das choças Frouxamente se alumia Da vela de cêra aceza Ante uma Virjem Maria Tendo nos braços Jezus.
É a hora augusta da reza.
Mãis, pobres mãis andrajozas De filhinhos semi-nus, No chão de terra ajoelhadas,
Dizem couzas misteriozas, Palavras entrecortadas De magua que se lastima, De suplica, e de esperança,
A essa outra Mãi que, lá em cima, Na gloria do ceu, descansa Do que passou neste mundo.
Ela que, com o mesmo eterno Requinte do amor materno, Sorriu a Jezus criança, Chorou Jezus moribundo,
La, do alto ceu infinito, Olha com olhos de Santa E de Mãi que já sofreu Tanto coração aflicto Que se volta para o seu.
Na roça a mizeria é tanta...
Quanta pobre gente, quanta, Expia o ser mal nascida Cumprindo a pena da vida Como pregada a uma cruz;
E, na angustia que a quebranta, Somente espera e antegoza A proteção milagroza Da virgem Mãi de Jezus!..
Na roça a mizeria é tanta...
E cada choça sombria Para o claro ceu levanta A reza da Ave, Maria.
Não, tu não falas á toa: Errei, confesso-o... Perdoa, Ó sino humilde da vila, Que assim badalas, badalas, Na paz da tarde tranquila; Ó sino, que tambem rézas, Ó sino, que tanto falas Á terra, toda asperezas, Como ao ceu, todo luar, Chamando, com o mesmo zelo, Cada infeliz — a rezar, Nossa Senhora — a atendel-o.
Consolador de tristezas! Semeador de esperanças!
Aqui nestas redondezas Não ha vida tão bonanças Nem cazebre tão remoto Onde quanto o sino diz Não abençoe um devoto, Não console um infeliz...
Por essas varzeas tão ermas Onde, perdidas e sós, Ha tantas almas enfermas De desesperos sem voz,
Onde tanto desdenhado De Deus, que de certo o olvida, Vive, até morrer, vergado Ao pezo da propria vida,
Vais chamar, em altos gritos Como si fosse a um dever, Desamparados e aflictos — Para o consolo de crer.
E de cazebre em cazebre Onde gente, a vida inteira, Vive de trabalho e febre, Morre de fome e canseira,
Afirmas á angustia surda Do mizero tabareu Que o brejo em que elle chafurda — É um caminho para o ceu.
A cada pobre praiano Que, na sua dura lida De afrontar o largo oceano, Vive de arriscar a vida,
Tu, consoladoramente, Falas para lhe lembrar Que ha quem reze por a gente — E ha ceu por cima do mar...
Da mesma igreja alvadia Evolam-se as badaladas E a reza da Ave, Maria.
Evolam-se... Misturadas, Sobem juntas para o ar Onde, palida e sozinha, Tão alva, que resplandece, Tão só, que vai a sonhar, Caminha a lua, caminha, E o ceu, imenso, parece Feito de sonho e luar.
Humilde sino da vila, Que assim badalas, badalas, Na paz da tarde tranquila;
Não, tu não falas á toa:
Percebo o que e a quem falas...
Perdoa!