Portuguese poem
Carta a W. S
by Vicente de Carvalho (1866–1924)
Artista, amigo, irmão, sê generoso e pio, Perdoa a um pescador seus pecados mortais! Eu, alma em turbilhão, corpo em cacos expio Com remorsos cruéis e cólicas fatais —Faltas em que reincido, erros em que porfio.
Ai, no fundo, não sou mais do que um bugre, eis tudo. Corre abundante em mim sangue de guaianás. Veste-me a pele branca o espírito desnudo, Simples, rudimentar, insubmisso, incapaz, Que porventura herdei de algum avô beiçudo.
Imagina que sou neto de algum cacique Cuja vida feliz de nômade sem lar Tinha a alegre feição de um grande piquenique; E em cuja fronte altiva as plumas de um cocar Eram como a expressão ritual do último chic.
Algum bugre feroz, cujo corpo bronzeado Mantinha a liberdade inata da nudez; Que dormia tranquilo um sonho descuidado —Passivo, indiferente, enfarado talvez— Sob o mistério azul do céu todo estrelado.
Ignorando o pavor da vida extra-terrena, Tinha para o Futuro um olhar de imbecil; E, passando na Terra, inútil, em pequena Viagem através da natureza hostil, Vivia sem cuidado e morria sem pena.
Vegetava feliz, sem lei, sem rei nem roque. Sua única ambição era a fome vivaz, Sua única riqueza, uma flecha e um bodoque; E abria-se num riso eterno e contumaz O seu lábio — fendido ao peso do batoque.
Imagina tu, pois, a alma do avô selvagem Comprimida, esmagada, atônita, infeliz, Metida numa vasta e complexa engrenagem De deveres morais e tramoias sutis, De apuros de dinheiro e apuros de linguagem;
Imagina esse filho inculto da floresta, Que ama o céu porque é belo, e ama o sol porque luz, —Perdido na cidade ignóbil e funesta, Cheia de sombra e pó, caiada e desonesta, Velha Aspásia, garrida, e a desfazer-se em pus;
Vê se esse humilde e tosco espírito imaginas, Ao sabor de uma turba em grita e em confusão, Pela prédica e o livro, os jornais e as mofinas, Arrastado em tropel — disputado em leilão Em nome de três mil Sistemas e Doutrinas;
Imagina cativa, entregue, submetida Aos caprichos da Moda e à exigência das Leis, Entre o encanto do Mal e a ideia da Outra Vida, Entre o culto de Deus e o culto do Mil-réis, Entre o padre e vendeiro, entre o Verso e a Comida;
Ai, imagina assim a alma do bugre bravo, Meu avô — que, no mato, era dono feliz Do seu tempo vazio e do seu gosto ignavo, Que era, em suma, o senhor do seu próprio nariz... —Alma livre que em mim reviveu num escravo!
Alma apenas capaz de adejar, fugidiça, Em voos leves de uma asa de beija-flor; E obrigada a pairar nas regiões da Justiça Como um corvo que sobe ao céu todo esplendor Para, do alto, melhor lobrigar a carniça...
Ai, a alma do tupi, bem mal domesticada À macaqueação cabocla do europeu, Conserva, forte e viva, a angustia de exilada, A saudade fiel de tudo que perdeu, Da floresta nativa, ausente e devastada.
Assim, de quando em quando assalta-me a cachola Um furioso desejo — ou do mato, ou do mar, Das vastas solidões onde ninguém me amola... E, pássaro cativo, eu fujo, a me escapar Da Civilização — como de uma gaiola.
Fujo, escapo, disparo através das vielas Plenas de agitação, de atritos e de pó; Salvo-me, aos esbarrões, dando cebo às canelas, A ouvir a voz de algum descendente de Jó Que apregoa Moral — coberto de mazelas.
Liberto, a salvo enfim, penetro na floresta Como num templo augusto habitado por Deus; E ante o vasto esplendor da natureza em festa, Sob a auréola em que a cinge a abóbada dos céus —Rendo-lhe a adoração que o meu olhar lhe presta.
Nem padres, nem altar, nem liturgia... Um coro De aves canta a alegria ingênua de viver; De longe em longe reza e resmunga um besouro, E sobe, como incenso, o perfume, a se erguer Da sombra em flor do chão que o sol polvilha de ouro.
E, por um dia ou dois, eis-me entregue, alma antiga De bugre ressurreto, o olhar vago, os pés nus, À doce Religião da Natureza amiga... Erro à toa; o primeiro atalho me conduz, Ver o céu me contenta; uma árvore me abriga.
Estendo-me na relva; e, na delícia absorto De sentir a alma leve, ôca, vazia... assim Gozo a beatitude inteira do conforto De me deixar levar pelo tempo sem fim Como um toco sem vida a boiar num mar morto.
Não pensar, não querer... A ambição e a saudade Adormecidas; morta essa ilusão pueril De fazer intervir no Destino a Vontade... Ignorar o Minuto, inseto odioso e vil Que rói a vida e vai tecendo a eternidade...
Na solidão do mato, esqueço, ignoro, em suma: Sou feliz. Do sueto a esta alma de aluguel Que vive, de auto em auto, a desfazer-se em espuma; E, livre do canudo atroz de bacharel, Passo orgulhosamente a ser coisa nenhuma.
E o mar então... O mar, o velho confidente De sonhos que a mim mesmo hesito em confessar, Atrai-me; a sua voz chama-me docemente, Dá-me uma embriaguez como feita de luar... O mar é para mim como o Céu para um crente.
Vê tu lá, Valdomiro, o bugre apenas manso Que eu sou. Sob o verniz que me disfarça, está O tapuia boçal, bravio como um ganso, Devoto da Preguiça, amigo do descanso, —Um neto do remoto avô Tibiriçá.
Ímpetos de voltar, fugido, para o mato, De me fazer ao mar numa casca de noz: Eis o vício do bugre, eis o meu vício inato, Eis o que eu em remorso e em cólicas resgato, Eis o crime de ser neto dos meus avós.
E agora, conhecendo a verdade inteiriça, Perdoa a um pescador seus pecados mortais, Perdoa a um preguiçoso os crimes da Preguiça, E a um bugre como eu sou, não ter na alma insubmissa O culto da Visita e dos Cartões Postais!
Falando agora a sério — e envergonhado o digo: Não, desculpa, não há que ouse em prosa valer Às mil faltas em que eu estou para contigo. O verso diz... o que não há para dizer: Pague, pois, o poeta as dívidas do amigo.
Paga-as; paga-as à vista, em rima numerosa; Paga-as de rosto alegre e coração feliz, Porque, na mesma estrofe exata e afetuosa, Pôde, na mesma voz que o mesmo verso diz, Saudar a um tempo o amigo e o príncipe da prosa.
Lida a defesa, que é tão extensa e tão crua, Outorga ao réu confesso num perdão liberal... Pai do céu! ainda aqui fiz uma falcatrua: Sendo a defesa assim tão comprida — afinal Os pecados são meus — e a penitência é tua...