Versos Portuguese Vicente de Carvalho Fragmento de uma carta

Portuguese poem

Fragmento de uma carta

by (1866–1924)

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«Vivo aqui neste ermo agreste Entre passaros e rozas Beijando as letras graciozas Da carta que me escreveste.

Quando é madrugada, saio Pelos campos orvalhados A encher os pulmões cançados Com toda a seiva de Maio.

Manhãs de sol, de um sol de ouro, Ceu muito azul, lindo, lindo; Moutas em flor sacudindo Aves que cantam em côro;

Aves que, de entre as ramadas, Dão os bons dias á aurora Com a alegria sonora De canções que são rizadas.

Sinto o contájio suave De tudo que me rodeia: Minh’alma palpita, cheia De vôos tremulos de ave.

Vim tão triste! E um sopro doce De viração perfumada Varre a neblina esgarçada Dessas tristezas que eu trouce.

Volta-me o sangue... A alegria Bróta em meu peito doente Como um lirio surpreendente Numa caveira sombria.

E espero poder em breve — Sadio, intrepido e forte — Minha ezistencia depôr-te Nessas mãozinhas de neve»...