Portuguese poem
O dia seguinte do amor
by Vicente de Carvalho (1866–1924)
Aves fugidias que passais em bando Pelo azul da tarde, sobre o azul do mar, Aves fugidias que passais cantando, Que fazeis? Passar.
De repente surgis. No vasto céu Um turbilhão de alvura de repente cresce; Passa, afasta-se, e ao longe, e como appareceu Desapparece.
Brancura macia de plumas, rumor leve De azas que ruflam de vagar, Passais como flocos de neve Que sussurram no vento e se desfazem no ar.
De tudo isso que resta? Um quasi nada: apenas Em meu olhar distrahido A vaga impressão de uma alvura de pennas, E o echo de um rumor cantando em meu ouvido.
Sonhos de amor, perfumados Do aroma da flor da laranjeira, Botões de rosa desabrochados Em goivos, desfeitos na lama e na poeira;
Sonhos do olhar namorado Ao descobrir, como um triumphador, Todo enlevado, todo enlevado, Que uns seios de marmore arquejam de amor;
Sonhos do ouvido, escutando O ingenuo amor que se revela emfim Involuntariamente, quando Em phrases que negam a voz diz que sim;
Sabor do primeiro beijo Que mal poisa, medroso, leve, leve, Num rosto virgem onde o pejo Semeia de rosas brancuras de neve;
Sonhos de amor, sois como a rosa Que, nem bem colhida, Perde a frescura que a tornou formosa, Perde o perfume que a tornou querida.
Primavera vivida De amar e ser amado aos vinte annos em flor, Entrada triumphal do coração na vida, Amor, amor, amor!
Rapida travessia De um mar azul, rasgado entre rochedos nús Nos quaes se ignora o amor, ou a alma se enfastia... Região lavada em luz
Entre esses dous extremos Tão proximos — o olhar que ainda não sabe ver E o que vê — triste fim dos encantos supremos! — O que vale a mulher;
Miragens do desejo, enlevos da esperança, Só é feliz o amor que espera e não alcança.
Infinita doçura, inegualavel coisa, Contacto delicioso, ineffavel pressão Da mão amada quando encontra a nossa mão E, brandamente, e como achando um ninho, poisa;
O’ labios da mulher palpitantes de amor, O’ labios que humidece o orvalho do desejo, Doces labios servis onde abotôa o beijo, Prestes a se deixar colher como uma flôr;
O’ seios brancos onde a paixão, a offegar, Chama a paixão, attrai a carne, acena ao goso; O’ seios brancos onde uns olhos de amoroso Vêm reflexos do céu na ondulação do mar;
Encantos da mulher amada; commovidos Deslumbramentos; gosto indizivel, sabor Da unica hora feliz de toda a vida; amor, Sonho em que a alma é que sente o goso dos sentidos;
No coração que de vós se alvoroça Resplandeceis, miragens, enganos, De uma luz que não é vossa... Que é só dos nossos vinte annos.
Tremulas maretas que passais boiando Pela flôr das ondas nos parceis do mar; Tremulas maretas que alvejais cantando, Que fazeis? Passar.
De repente surgis... No mar sem fim Um turbilhão de alvura de repente cresce; Passa; afasta-se; e como appareceu, assim Desapparece.
Brancura brilhante de espumas, sons velados Da agua no açude de um pomar. Passais, desfeitos, desmanchados Na tristeza sonora das ondas do mar.
De tudo isso que resta? Ai! Quasi cousa alguma: Em meu olhar distrahido A vaga impressão de alguns flocos de espuma E o écho de um rumor cantando em meu ouvido...