Portuguese poem
Primavera
by Vicente de Carvalho (1866–1924)
Hoje, eu quiz escrutar o seio da floresta, Sentir o coração da primavera arfar Em cada arbusto em flor, em cada ninho em festa, No chão, nas frondes, no ar.
No céo completamente azul, rompêra o dia. Que formoza manhã! Que alegre sol! A arajem Era um perfume. O orvalho, em perolas, fuljia No tremor da folhagem.
Voluptuozamente enlaçavam-se, rindo, Pelos troncos senis, trepadeiras em flor, Dos troncos á velhice ezausta repartindo Uns bálsamos de amor;
E os troncos, ao calor daquela mocidade, Da seiva que no tempo, inválida, se perde, Riam-se, aqui, ali, na muda alacridade De uma folha mais verde.
Borboletas, roçando apenas, de aza incerta, A florecencia rôxo-azul dos manacás, Depunham de corola em corola entreaberta O seu beijo voraz.
Falavam-se de amor os passaros inquietos, E palpitava em torno, em sussurrante adejo, Nem eu sei si o rumor das azas dos insetos Ou si o rumor de um beijo.
«Amor! Amor!» — dizia a natureza toda Como louca de luz, de seiva, de paixão. O vento desflorava os laranjais em roda... E me lembrou então
Nosso noivado, ó tu cujo labio me espera, O’ tu, formoza, ó tu, perfeita e bem querida, Cujo beijo abrirá tambem a primavera No chão da minha vida!