Portuguese poem
Sobre uma criança morta
by Vicente de Carvalho (1866–1924)
Entregaram-te emfim á paz do cemiterio, Deitaram-te na cova o corpo delicado, E a funda escuridão do funebre misterio Sorveu-te para sempre, ó lirio desfolhado!
Agora, na humidade asperrima do solo, Terás, para abrigar-te o derradeiro sono, Em vez do olhar materno e do materno colo A solidão sem fim do supremo abandono.
E lá ir-te-ão roçar a alvissima epiderme E, roendo-te a carne, apodrecer-te os ossos, O contato voraz das larvas e dos vermes, E as negras podridões dos charcos e dos poços.
E, emquanto na funerea escuridão dormires, A terra hade sorrir nas espansões da flóra, Hão de enfaixar o ceu as côres do arco-iris, E o sol hade fuljir nas purpuras da aurora.
E tu... não mais irás colher pelos caminhos A rubra flor aberta á madrugada, e á ave Não mais imitarão a muzica dos ninhos As claras vibrações de tua voz suave.
Amanhã tu serás o lodo de um monturo, Uma caveira a rir um rizo de idiota, E surjirás no limo, e has de ser verme impuro, E has de vir na herva má que a sepultura brota...
Embora! Terás sempre a alvura do alabastro A’ vista espiritual de uma iluzão materna: Ah, para tua mãi tu serás sempre um astro Refuljindo no azul de uma saudade eterna.