Versos Portuguese Vicente de Carvalho Tróvas

Portuguese poem

Tróvas

by (1866–1924)

Listen in the reader

Ouve: se amor é pecado, Eu, pecador, me confesso De tudo quanto anda impresso Em meu olhar enlevado.

Se com isso estou perdendo A minh´alma transviada, -Minh´alma não vale nada... Eu peco, e não me arrependo.

Deste ardor em que me inflamo Direi, para ser sincero, Que dele somente espero Amar-te mais do que te amo.

Se rezo, nas minhas preces Só peço a Deus essa graça: Que me conceda e me faça Amar-te quanto mereces.

Eu vivo tão descuidado De tudo mais desta vida, Que nem me ocorre, querida, A idéia de ser amado.

Amor com o feitio desse Que a si mesmo renuncia, -Como te agradeceria O que eu por ti padecesse!

Deixa tu, pois que se farte Meu olhar impenitente Todo embebido e contente Da só ventura de olhar-te.

Sem razão foras severa Com a pobre de uma roseira Por que ela, queira ou não queira, Dá rosa, se é primavera...

Deus, que nos pôs face a face E deu-me os olhos que tenho, Nisso mostrou certo empenho Em que eu te visse - e te amasse.

Por força da lei divina E não, decerto, por gosto Quando pousa no teu rosto O meu olhar se ilumina.

Perdoa a muda insistência Dos olhos que a ti levanto: Olhar-te é o supremo encanto De toda a minha existência.

Olhar-te... Delícia calma! Mar tranquilo e sem escolhos! É o pecado dos meus olhos E a salvação da minh´alma.

Confesso-me, nada nego: Amo-te...E nisto de amar-te Só tenho de minha parte A culpa se não ser cego.

É meu destino, que queres? Eu te amo por que me encantas -Tu, a mais linda das santas E a mais santa das mulheres.