Versos Portuguese Vicente de Carvalho Tumulo de uma alma

Portuguese poem

Tumulo de uma alma

by (1866–1924)

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Esta flor que me deste suspirando Na hora da partida (Ha tanto tempo, ha tanto tempo!) quando No ceu da minha vida Resplendia a manhã do teu amor,

Beijo-a, que é tudo que me resta, tudo! De um sonho encantador. Ela me fala de um passado mudo, De um tempo que não volta...

Linda pajina solta Do desfolhado livro de minh’alma!

Ai, o primeiro amor! Quem as não teve, As ilusões da adolescencia calma Antes que a fria neve Dos tristes dezenganos Pela estrada da vida se alastrasse?

Voam os leves anos, E, com os anos, elas Erguem o vôo alíjero e fugace...

Olha, são como aquelas Aves de lindas plumas e voz doce Que na alegre manhã de um claro dia A primavera trouce: Emquanto um ceu azul resplandecia Sobre a pompa das arvores em flor, Toda a floresta palpitava e ria No confuzo rumor De ruflos de aza e cantos de alegria.

Depois, um dia, a um pôr de sol saudozo — Ia o inverno chegando — Todas, uma por uma, abrindo no ar O vôo silenciozo, Fôram voando... voando... E afundaram na sombra do crepusculo Para não mais voltar...

Ai, o primeiro amor! Quem as não teve, Na alegre madrugada dos quinze anos, As iluzões da dolescencia calma, Antes que a fria neve Dos tristes dezenganos Lhe amortalhasse a alma?

Vêm, quando é primavera, Como um bando de passaros joviais; Mas, ao fujir a primavera, vão-se, Vão-se, e não voltam mais.

Vêm-nos ao coração, ruidozamente Cantando cantos de alegria; e á sua Fuga, deixam em nós toda a tristeza De uma floresta desfolhada e nua...

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Hoje, quando me encontras por acazo Num desses bailes onde resplandeces, E sobre mim (ó merencorio ocazo De um lindo dia!) o olhar tranquilo déces, Teu seio alabastrino Já não palpita como palpitava...

Não estremece o marmore divino!

Hoje és deuza e rainha... Após teus passos Referve um turbilhão de adoradores, E desfolham-te aos pés frazes e flores Os corações devassos De cem conquistadores.

E’s bonita, elegante, dezenvolta; Tens sobre as almas um dominio estenso; E vais seguindo pela vida, envolta Numa nuvem de incenso.

Melancolicamente Eu ponho-me a cismar Na criança que amei, alma inocente, Timida flor selvajem que a corrente Arrastou para o mar...

Eu dou razão inteira A’ turba que te segue e te apoteóza: Os teus labios são como uma rozeira, Os teus sorrizos são botões de roza...

Deus, por certo, creou-te Para inspirar arrojos de lirismo: Os teus olhos, escuros como a noute, Têm atrações de abismo.

Bem mereces, por certo, O amor de tanto coração constante Que se mata a seguir teu vôo incerto De borboleta errante.

Formoza! Sim, confesso que és formoza, Ai, reconheço que és encantadora. Botão que amei, dezabrochaste em roza... E amo-te? Isso não sei, minha senhôra.

Quando te fito, acodem-me á lembrança Uns amores que tive, e que perdi... Eu amo sempre a que adorei criança, A que tu foste, a que morreu em ti.

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