Portuguese poem
Ultima confidencia
by Vicente de Carvalho (1866–1924)
— E si acaso voltar ? Que hei de dizer-lhe, quando Me perguntar por ti? — Dize-lhe que me viste, uma tarde, chorando ... Nessa tarde parti.
— Si arrependido e ancioso elle indagar: «Para onde? Por onde a buscarei?» — Dize-lhe : « Para além... para longe...» Responde Como eu mesma: «Não sei.»
Ai, é tão vasta a noite! A meia luz do occaso Desmaia... Anoiteceu... Onde vou? Nem eu sei... Irei seguindo ao acaso Até achar o céu.
Eu cheguei a suppôr que possivel me fosse Ser amada — e viver. E’ tão facil a morte... Ai, seria tão doce Ser amada... e morrer!...
Ouve: conta-lhe tu que eu chorava, partindo, As lagrimas que vês... Só conheci do amor que imaginei tão lindo, O mal que elle me fez.
Narra-lhe transe a transe a dor que me consome... Nem houve nunca egual! Conta-lhe que eu morri murmurando o seu nome No soluço final!
Dize-lhe que o seu nome ensanguentava a bocca Que o seu beijo não quiz: Golpha-me em sangue, vês? E eu, murmurando-o, louca! Sinto-me tão feliz!
Nada lhe contes, não... Poupa-o... Eu quasi o odeio, Occulta-lh’o! Senhor, Eu morro!... Amava-o tanto... Amei-o sempre... Amei-o Até morrer... de amor.