Portuguese poem
No mar largo
by Vicente de Carvalho (1866–1924)
Ó lua bendita Que vens clarear A sombra infinita Da noite no mar!
Como princesa encantada Que um leve sonho conduz, Surges do mar, coroada De um ninho de ouro e de luz.
Surges; e à tua presença, O céu, criado por ela, De dentro da noite imensa Surge, e se azula, e se estrela.
Ó lua bendita Que vens clarear A sombra infinita Da noitr no mar!
Surgida do mar infindo, O infindo céu te seduz - Campo em flor que vês fulgindo Em flores de ouro e de luz;
Teu passo, lento, caminha... Onde vais? É longe? É perto? Sobes, absorta e sòzinha, Pelo azul, vasto e deserto.
Ó lua bendita Que vens clarear A sombra infinita Da noite no mar!
Lua, lua, não te apresses: Mais sobes, mais se reduz No alvor em que empalideces Teu nimbo de ouro e de luz...
Onde o teu caminho te arrasta? A que destino? A que têrmo? Segues... A noite é tão vasta Pelo azul do céu tão êrmo...
Ó lua bendita Que vens clarear A sombra infinita Da noit no mar!
Tão alto que tu subiste! Tão longe!... Do céu a flux, Vagueias, pálida e triste, Entre as flores de ouro e luz...
Como entristece da tua Ausência, ou das tuas mágoas O mar que deixaste, ó lua, Lua surgida das águas!
Ó lua bendita Que vens clarear A sombra infinita Da noite no mar!
Como uma lágrima prestes A rolar, pairas suspensa Lá dos páramos celestes, Lá do azul da noite imensa:
De todo o céu luminoso Sôbre todo o escuro mar Desce o alvor silencioso Do luar...
E o mar, sob a triste alvura Desse lívido sudário, Êrmo e vago, se afigura Mais vago, mais solitário...
Ó linda princesa Que vens aumentar A imensa tristeza Da noite no mar!