Versos Portuguese Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett As Pêgas De Cintra

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As Pêgas De Cintra

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Gavião, gavião branco Vai ferido e vai voando; Mas não diz quem n’o feriu, Gavião, gavião branco!

O gavião é callado, Vai ferido e vai voando; Assim fôra a negra pêga Que hade sempre andar palrando.

A pêga é negra e palreira, O que sabe vai contando... Muito palra, palra a pêga Que sempre hade estar palrando.

Mas quer Deus que os chocalheiros Guardem ás vezes, fallando, O segredo dos sisudos Que elles não guardam callando.

Era uma pêga no paço Que el-rei tomára caçando; Trazem-n’a as damas mimosa Com a estar sempre afagando.

Nos paços era de Cintra Onde estava el-rei poisando: A rainha e as suas damas No jardim andam folgando,

Entre assucenas e rosas, Entre os goivos trebelhando; Umas regavam as flores, Outras as vão apanhando;

E a minha pêga com ellas Sempre, sempre palreando. Vinha el-rei atraz de todos Com Dona Mécia fallando.

Era a mais formosa dama Que andava n’aquelle bando: No hombro de Dona Mécia, A pêga vinha poisando,

E zelosa parecia Que os andava espreitando... Colhêra el-rei uma rosa, A Dona Mécia a ia dando,

Com um requêbro nos olhos Tam namorado e tam brando... Inda bem, minha rainha, Que adiante te vais andando!

Pegou na rosa a donzella, Disfarçada a está cheirando... Senão quando a negra pêga Que lh’a tira e vai voando.

Deu um grito Dona Mécia... E a rainha, voltando, Deu com os olhos em ambos... Ambos se estão delatando.

—‘Foi por bem!’ lhe disse o rei, Seu accôrdo recobrando: —‘Foi por bem!’—‘Por bem’ repete A pêga emtôrno voando.

—‘Por bem, por bem!’ grasna a tonta, De má malicia cuidando Co’a chocalheira da lingua Andar o caso inredando.

Mas quer Deus que os chocalheiros Guardem ás vezes fallando O segredo dos sisudos Que elles não guardam callando

Riu-se a rainha da pêga, E ficou acreditando Que a innocencia do caso N’ella se estava provando.

Da pêga mexeriqueira, Do bem que fez, mal pensando, Nos reaes paços de Cintra A memoria está durando.

E eis-aqui, senhora, a historia Da pêga que ahi ves palrando, Da rosa que tem no bico, Da lettra que a está cercando.

A pêga é negra e palreira, O que sabe vai contando: Mas quer Deus que os chocalheiros Guardem segredo fallando.

O gavião, esse é outro; Vai ferido e vai voando: Mas não diz quem n’o feriu... Gavião, gavião branco!