Portuguese poem
Adeus!
by Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett
Adeus! para sempre adeus! Vai-te, oh! vai-te, que n’esta hora Sinto a justiça dos ceus Esmagar-me a alma que chora. Chóro porque não te amei, Chóro o amor que me tiveste; O que eu perco, bem n’o sei, Mas tu... tu nada perdeste: Que este mau coração meu Nos secretos escaninhos Tem venenos tam damninhos Que o seu podêr só sei eu.
Oh! vai... para sempre adeus! Vai, que ha justiça nos ceus. Sinto gerar na peçonha Do ulcerado coração Essa vibora medonha Que por seu fatal condão Hade rasgá-lo ao nascer: Hade sim, serás vingada, E o meu castigo hade ser Ciume de ver-te amada, Remorso de te perder.
Vai-te, oh! vai-te, longe, embora, Que sou eu capaz agora De te amar.--Ai! se eu te amasse! Vê se no arido pragal D’este peito se ateasse De amor o incendio fatal! Mais negro e feio no inferno Não chammeja o fogo eterno.
Que sim? Que antes isso?--Ai, triste! Não sabes o que pediste. Não te bastou supportar O cepo-rei; impaciente Tu ousas a deus tentar Pedindo-lhe o rei-serpente!
E cuidas amar-me ainda? Inganas-te: é morta, é finda, Dissipada é a illusão. Do meigo azul de teus olhos Tanta lagryma verteste, Tanto esse orvalho celeste Derramado o viste em vão N’esta seara de abrolhos, Que a fonte seccou. Agora Amarás... sim hasde amar, Amar deves... Muito embora... Oh! mas n’outro hasde sonhar Os sonhos de oiro incantados Que o mundo chamou amores.
E eu réprobo... eu se o verei? Se em meus olhos incovados Der a luz de teus ardores... Se com ella cegarei? Se o nada d’essas mentiras Me entrar pelo vão da vida... Se, ao ver que feliz deliras, Tambem eu sonhar... Perdida, Perdida serás--perdida.
Oh! vai-te, vai, longe, embora! Que te lembre sempre e agora Que não te amei nunca... ai! não; E que pude a sangue frio, Covarde, infame, villão, Gosar-te--mentir sem brio, Sem alma, sem dó, sem pejo, Commettendo em cada bejo Um crime... Ai! triste, não chores, Não chores, anjo do ceu, Que o deshonrado sou eu.
Perdoar-me tu?... Não mereço. A immundo cerdo voraz Essas perolas de preço Não as deites: é capaz De as desprezar na torpeza De sua bruta natureza. Irada, te hade admirar, Despeitosa, respeitar, Mas indulgente... Oh! o perdão É perdido no villão, Que de ti hade zombar.
Vai, vai... para sempre adeus! Para sempre aos olhos meus Sumido seja o clarão De tua divina estrêlla. Faltam-me olhos e razão Para a ver, para intendê-la: Alta está no firmamento Demais, e demais é bella Para o baixo pensamento Com que em má hora a fitei; Falso e vil o incantamento Com que a luz lhe fascinei. Que volte a sua belleza Do azul do ceu á pureza, E que a mim me deixe aqui Nas trevas em que nasci, Trevas negras, densas, feias, Como é negro este aleijão D’onde me vem sangue ás veias, Este que foi coração, Este que amar-te não sabe Porque é só terra--e não cabe N’elle uma idea dos ceus... Oh! vai, vai; deixa-me, adeus!
III.
QUANDO EU SONHAVA.
Quando eu sonhava, era assim Que nos meus sonhos a via; E era assim que me fugia, Apenas eu despertava, Essa imagem fugidia Que nunca pude alcançar. Agora que estou desperto, Agora a vejo fixar... Paraquê?--Quando era vaga, Uma idea, um pensamento, Um raio de estrêlla incerto No immenso firmamento, Uma chymera, um vão sonho, Eu sonhava--mas vivia: Prazer não sabia o que era, Mas dor, não n’a conhecia... .............................
IV.
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