Versos Portuguese Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett A Noiva Arraiana

Portuguese poem

A Noiva Arraiana

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—‘Deus vos salve, minha tia, Na vossa roca a fiar!’ —‘Venha embora o cavalleiro Tam cortez no seu fallar!’ —‘Má hora se elle foi, tia, —‘Má hora torna a voltar! Que ja ninguem o conhece De mudado que hade estar. Por lá o mattassem moiros, Se assim tinha de tornar!’ —‘Ai sobrinho de minha alma, Que es tu pelo teu fallar! Não ves estes olhos, filho, Que cegaram de chorar?’ —‘E meu pae e minha mãe, Tia, que os quero abraçar?’ —‘Teu pae é morto, sobrinho, Tua mãe foi a interrar.’ —‘Qu’é da minha armada, tia, Que eu aqui mandei estar?’ —‘A tua armada, sobrinho, Mandou-a o fronteiro ao mar.’ —‘Qu’é do meu cavallo, tia, Que eu aqui deixei ficar?’ —‘O teu cavallo, sobrinho, Elrei o mandou tomar.’ —‘Qu’é de minha dama, tia, Que aqui ficou a chorar?’ —‘Tua dama faz hoje a voda, Ámanhan se vai casar.’ —‘Dizei-me onde é, minha tia, Que me quero lá chegar.’ —‘Sobrinho, não digo, não, Que te podem lá mattar.’ —‘Não me mattam, minha tia; Cortezia eu sei usar: E onde faltar cortezia, Ésta espada hade chegar.’

—‘Salve Deus, ó lá da voda, Em bem seja o seu folgar!’ —‘Venha embora o cavalleiro, E que se chegue ao jantar!’ —‘Eu não pretendo da voda Nem tam pouco do jantar; Pretendo fallar á noiva, Que é minha prima carnal.’

Vindo ella lá de dentro Toda lavada em chorar, Mal que viu o cavalleiro, Quiz morrer, quiz desmaiar. —‘Se tu choras por me veres, Ja me quero retirar; Se é os teus gastos que choras, Aqui estou para os pagar.’ —‘Pagar devia co’a vida Quem me queria inganar, Quando te deram por morto N’essas terras d’além-mar. Mas que fiquem com a voda E bem lhes preste o jantar, Que os meus primeiros amores Ninguem m’os hade quitar.’

—‘Venha juiz de Castella, Alcaide de Portugal; Que, se aqui não ha justiça, Co’ésta espada a heide tomar.’