Versos Portuguese Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett A Peregrina

Portuguese poem

A Peregrina

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Peregrina, a peregrina Andava a peregrinar Em cata de um cavalleiro Que lhe fugiu, mal pezar! A um castello torreado Pela tarde foi parar: Signaes certos, que trazia Do castello, foi achar. —‘Mora aqui o cavalleiro? Aqui deve de morar.’ Respondêra-lhe uma dona Discreta no seu fallar: —‘O cavalleiro está fóra, Mas não deve de tardar. Se tem pressa a peregrina, Ja lh’o mandarei chamar.’

Palavras não eram dittas, O cavalleiro a chegar: —‘Que fazeis porqui, senhora, Quem vos trouxe a este logar?’ —‘O amor de um cavalleiro Por aqui me faz andar. Prometteu de voltar cedo, Nunca mais o vi tornar; Deixei meu pae, minha casa, Corri por terra e por mar Em busca do cavalleiro, Sem nunca o podêr achar.’ —‘Negro fadairo, senhora, Que tarde vos fez chegar! Eu de vosso pae fugia Que me queria mattar; Corri terras, passei máres, A este castello vim dar. Antes que fôsse anno e dia (Vós me fizestes jurar) Com outra dama ou donzella Não me havia desposar. Anno e dia eram passados Sem de vós ouvir fallar, Co’a dona d’esse castello Eu hontem me fui casar...’ Palavras não eram dittas, A peregrina a expirar. —‘Ai penas de minha vida, Ai vida de meu penar! Que farei d’esta lindeza Que em meus braços vem finar?’

Do alto de sua tôrre A dama estava a raivar: —‘Levá-la d’ahi, cavalleiro, E que a deitem ao mar.’ —‘Tal não farei eu, senhora, Que ella é de sangue real... E amou com tanto extremo A quem lhe foi desleal. Oh! quem não sabe ser firme, Melhor fôra não amar.’ Palavras não eram dittas O cavalleiro a expirar. Manda a dona do castello Que os vão logo interrar Em duas covas bem fundas Alli junto á beira-mar. Na campa do cavalleiro Nasce um triste pinheiral, E na campa da princesa Um saudoso canavial. Manda a dona do castello Todas as canas cortar; Mas as canas das raizes Tornavam a rebentar: E á noite a castellana As ouvia suspirar.