Portuguese poem
A Romeira
by Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett
Por aquelles montes verdes Uma romeira descia; Tam honesta e formosinha Não vai outra á romaria. Sua saia leva baixa Que nas hervas lhe prendia; Seu chapelinho cahido Que lindos olhos cubria! Cavalleiro vai traz d’ella, De má tenção que a seguia! Não a alcança, por mais que ande, Alcançá-la não podia Senão juncto a essa oliveira Que está no adro da ermida. Á sombra da árvore benta A romeira se accolhia: —‘Eu te rogo, cavalleiro, Por Deus e a Virgem Maria, Que me deixes ir honrada Para a sancta romaria.’ Cavalleiro, de malvado, Nem Deus nem razão ouvia; Cego no desejo bruto, De amores a accommettia. Pegaram de braço a braço: Lucta de grande porfia! A romeira, por mais fraca, Emfim rendida cahia... No cahir, lhe viu á cinta Um punhal que elle trazia; Com toda a fôrça lh’o arranca, No coração lh’o mettia. O sangue negro saltava, O negro sangue corria... —‘Por Deus te peço, romeira, Por Deus e a Virgem Maria, Que o não digas em tua terra, Nem te vás gabar á minha Da vingança que tomaste, Da affronta que te eu fazia.’ —‘Heide dizê-lo em tu’terra, Heide me ir gabar á minha, Que mattei um vil covarde Co’as armas que elle trazia.’ Tocou a campa da ermida, A campa que retinia: —‘Ermitão, por Deus vos peço, Bom ermitão d’esta ermida, Tenhais dó d’essa má alma Que inda agora se partia: Dae terra benta ao seu corpo, Que Deus lhe perdoaria.’
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