Versos Portuguese Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett A Morena

Portuguese poem

A Morena

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Fui-me á porta da Morena, Da Morena mal casada: —‘Abre-me a porta, Morena, Abre-m’a por tua alma!’ —‘Como te heide abrir a porta, Meu frei João da minha alma, Se tenho a menina ao peito E meu marido á ilharga?’ Estando n’estas razões, O marido que acordava: —‘Que é isso, mulher minha, A quem dás as tuas fallas?’ —‘Digo á môça do forno, Que veio ver se amassava, Se amassasse pão de leite, Que lhe deitasse pouca agua.’ —‘Ergue-te, ó mulher minha, Vai cuidar da tua casa; Manda teus moços á lenha, Teus escravos buscar agua.’ —‘Ergue-te d’ahi, marido, Vai ao monte pela caça; Não ha coelho mais certo Do que é o da madrugada.’

O marido que sahia, Morena que infeitava; Seu manteo de cochonilha De dôze testões a vara, Meia de seda incarnada Que na perna lhe estalava, Sua bengalla, na mão Que mal no chão lhe tocava. Foi-se direita ao convento, Á portaria chegava. O porteiro é frei João Que pela mão a tomava; Levou-a á sua cella, Muito bem a confessava... Penitencia que lhe deu, Logo alli mesmo a resava.

Á sahida do convento O marido que a incontrava: —‘D’onde vens, ó mulher minha, Donde vens tam arraiada?’ —‘Venho de ouvir missa nova, Missa nova bem cantada: Disse-a o padre frei João, Que assim venho consolada.’ —‘Consolar-te heide eu agora Com a ponta d’esta espada...’ Deu-lhe um golpe pelos peitos, Deixou-a morta deitada. —‘Não se me dá de morrer, Que o morrer não custa nada; Da-se-me da minha filha, Que a não deixo desmamada!’ —‘Fôras tu melhor mãe que es, Não fôras tam mal casada, Não havias de morrer D’esta morte desastrada.’

Levavam-n’a ao convento, N’uma tumba amortalhada: Surria-se o frei João, E o marido... é quem chorava.