Versos Portuguese Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett A Ama

Portuguese poem

A Ama

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Pençando-vos estou, filha, Vossa mãe me está lembrando; Enchem-se-me os olhos d’agua, N’ella vos estou lavando.

Nascestes, filha, entre mágoa; Pera bem inda vos seja! Pois em vosso nascimento Fortuna vos houve inveja.

Morto era o contentamento Nenhuma alegria ouvistes; Vossa mãe era finada, Nós outros eramos tristes.

Nada em dor, em dor criada, Não sei onde isto hade ir ter: Vejo-vos, filha, fermosa, Com olhos verdes crescer.

Não era ésta graça vossa Pera nascer em destêrro: Mal haja a desaventura Que pôs mais n’isto que o êrro!

Tinha aqui sua sepultura Vossa mãe, e a mágoa a nós! Não éreis vós, filha, não, Pera morrerem por vós.

Não ouvem fados razão, Nem se consentem rogar; De vosso pae hei mor dó, Que de si se ha de queixar.

Eu vos ouvi a vós só Primeiro que outrem ninguem; Não foreis vós se eu não fôra: Não sei se fiz mal se bem.

Mas não póde ser, senhora, Pera mal nenhum nascerdes, Com esse riso gracioso Que tendes sob olhos verdes.

Confôrto, mas duvidoso, Me é este que tómo assi! Deus vos dê melhor ventura Do que tivestes téaqui.

A Dita e a Fermosura, Dizem patranhas antigas, Que pelejaram um dia, Sendo d’antes muito amigas.

Muitos hão que é phantesia: Eu, que vi tempos e annos, Nenhuma coisa duvido Como ella é azo de damnos.

Nem nenhum mal não é crido, O bem so é esperado: E na crença e na esperança, Em ambas ha hi cuidado, Em ambas ha hi mudança.