Versos Portuguese Visconde de Almeida Garrett João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett (N’Um Album)

Portuguese poem

(N’Um Album)

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Ah! despreza o meu retratto Que lhe eu queria aqui pôr! Tem medo que lhe desfeie O seu livro de primor? Pois saiba que por despique Eu sei tambem ser pintor: Co’esta penna por pincel, E a tinta do meu tinteiro, Vou fazer o seu retratto Aqui ja de corpo inteiro.

Vamos a isto.--Sentada Na cadeira ‘moyen-âge,’ O cabello en ‘chatellaines,’ As mangas sôltas.--É o traje.

Em longas pregas negras Caia o velludo e arraste; De si com desdem regio Com o pésinho o affaste...

N’essa attitude! Está bem: Agora mais um geitinho; A airosa cabeça a um lado E o lindo pé no banquinho.

Aqui estão os contornos, são estes, Nem Daguerre lh’os tira melhor. Este é o ar, ésta a ‘pose,’ eu lh’o juro, E o trajar que lhe fica melhor.

Vamos agora ao difficil: Tirar feição por feição; Intendê-las, que é o ponto, E dar-lhe a justa expressão.

Os olhos são côr da noite, Da noite em seu começar, Quando inda é joven, incerta, E o dia vem de acabar;

Têem uma luz que vai longe, Que faz gôsto de queimar: É uma especie de lume Que serve só de abrazar.

Na bôcca há um surriso amavel. Amavel é... mas queria Saber se é todo bondade Ou se meio é zombaria.

Ninguem m’o diz? O retratto Incompleto ficará, Que n’estas duas feições Todo o ser, toda a alma está.

Pois fiel como um espelho É tudo o que n’elle fiz; E o que lhe falta--que é muito, Tambem o espelho o não diz.

VII.

LUCINDA.

Ergue a frente, lirio, Ergue a branca frente! O astro do delirio Ja surgiu no oriente.

Ves, o sol ardente Lá cahiu no mar; A frente pendente Ergue a respirar!

Alvo é o luar, Teu alvor não cresta; A hora de gosar, De viver é ésta.

Longa foi a sésta Longo o teu dormir; Ergue a branca testa, Tempo é de surgir!

Ja se abre a surrir Tua bôcca linda... Despertar, sentir Ou sonhar é ainda?

Sonho que não finda Será o teu sonhar, Se a dormir, Lucinda, Te sentes amar.

VIII.

AS DUAS ROSAS.

Sôbre se era mais formosa A vermelha ou branca rosa, Ardeu seculos a guerra Em Inglaterra.

Paz entre as duas, jamais! Reinar ambas as rivais, Tambem não; e uma ceder Como hade ser?

Faltei eu lá na Inglaterra Para acabar com a guerra. Ei-las aqui bem eguaes, Mas não rivaes.

Atei-as em laço estreito: Que artista fui, com que geito! E oh! que lindas são, que amores As minhas flores!

Dirão que é cópia;--bem sei: Que todo inteiro o roubei Meu pensamento brilhante Do teu semblante...

Será. Mas se é tam bello Que lhe deem esse modello, Do meu quadro, na verdade, Tenho vaidade.

IX.

VOZ E AROMA.

A brisa vaga no prado, Perfume nem voz não tem; Quem canta é o ramo agitado, O aroma é da flor que vem.

A mim, tornem-me essas flores Que uma a uma eu vi murchar, Restituam-me os verdores Aos ramos que eu vi seccar...

E em torrentes de harmonia Minha alma se exhalará, Ésta alma que muda e fria Nem sabe se existe ja.

X.

SEUS OLHOS.

Seus olhos--se eu sei pintar O que os meus olhos cegou-- Não tinham luz de brilhar, Era chamma de queimar; E o fogo que a ateou Vivaz, eterno, divino, Como o facho do Destino.

Divino, eterno!--e suave Ao mesmo tempo: mas grave E de tam fatal podêr, Que, um só momento que a vi, Queimar toda alma senti... Nem ficou mais de meu ser, Senão a cinza em que ardi.

XI.

A DÉLIA.

Cuidas tu que a rosa chora, Que é tammanha a sua dor, Quando, ja passada a aurora, O sol, ardente de amor, Com seus bejos a devora? --Feche virgineo pudor O que inda é botão agora E ámanhan hade ser flor; Mas ella é rosa n’esta hora. Rosa no aroma e na côr. --Para ámanhan o prazer Deixe o que ámanhan viver. Hoje, Délia, é nossa a vida; Ámanhan... o que hade ser? A hora de amor perdida Quem sabe se hade volver? Não desperdices, querida, A duvidar e a soffrer O que é mal gasto da vida Quando o não gasta o prazer.

XII.

A JOVEN AMERICANA.

Donde é que te eu vi, donzella, E o que eras tu n’esta vida Quando não tinhas vestida A fórma de virgem bella Que ora te vejo trajar?

Estrêlla foste no ceo, Serias no prado flor? Ou, no diaphano splendor De que Iris faz o seu veo, Estavas, Silpha, a bordar?

Não houve poeta ainda Que te não visse e cantasse, Mulher que não te invejasse, Nem pintor que a face linda Te não fôsse copiar.

Seculos tens.--E ah!... ja sei Quem es, quem foste e hasde ser: Bem te eu estava a conhecer Quando primeiro te olhei Sem te podêr estranhar.

Com Deus e co’a Liberdade De nossas terras fugiste Quando perdidos nos viste, E te foste á soledade Do novo-mundo acoitar.

Pois que ora piedosa vens E nos sentes resurgir, Oh! não tornes a fugir, Que melhor patria não tens Nem que mais te saiba amar.

Teu natal celebraremos Hoje e sempre: teus amigos Somos na lealdade antigos, E no ardor novos seremos, No desvéllo em te adorar:

Porque tu es o Ideal Da só belleza--do Bem; Não es estranha a ninguem, E de ti só foge o mal Que te não póde incarar.

XIII.