Portuguese poem
A saudade
by Adélia Josefina de Castro Fonseca (1827–1920)
Saudade! gosto amargo d'infelizes. Delicioso pungir de acerbo espinho, Que m'stás repassando o intimo peito Com dor, que os seios d’alma dilacera, — Mas dôr que tem prazeres. Garret. Poem, Camões.
Tu ao menos, ó flor de infelizes, Tu ao menos não me has de deixar; Si a desgraça plantou-te em meu peito, D’elle mais te não póde arrancar.
Essas vãs alegrias do mundo, Esses gozos que o mundo aprecia, Eu os tróco, saudade adorada, Pela tua fiel companhia.
Emquanto eu existir, do martyrio, Vivirás, p’ra me dares a palma; Si a ventura tentasse levar-te, Levaria comtigo minh’alma.
Tu ao menos, ó flor de infelizes, Tu ao menos não me has de deixar; Si a desgraça plantou-te em meu peito, D’elle mais te não póde arrancar.
Nem espero que mude meu fado; E si attento em meu triste futuro, Nelle vejo — indiziveis angustias Um sepulchro cavando-me escuro!
Praza a Deus, que com tantos desgostos, Minha pobre razão não feneça; Que a saudade me não desampare, Nem seu dôce motivo eu esqueça.
Sim, permitte, Senhor, que em minh’alma Ache sempre uma imagem querida, Que, a despeito da sorte mesquinha, Me atormente, encantando-me a vida.
Que essas vãs alegrias do mundo, Esses gozos que o mundo aprecia, Da saudade adorada eu os tróco Pela dôce e fiel companhia.