Portuguese poem
À noite
by Adélia Josefina de Castro Fonseca (1827–1920)
Teu ar merencorio, ó noite querida, Agrada infinito ao meu coração; Que as tristes ideias, que a mente me occupam, Casar melhor vejo co’a tua soidão.
Apenas desdobras teu manto de anil, Assim recamado de lindas estrellas, Minh’alma, enlevada, bemdiz o Autor De tantos prodigios, de noites tão bellas.
Eu gósto de ver-te, amiga deidade, Porque só comtigo é que ouso ser franca; De ti, só de ti confio os queixumes, Que a sorte adversa do peito me arranca.
Tu és adorada d’aquelles que devem Pungentes angustias no seio occultar; D’aquelles que contam somente por dita Poderem bem livres á dor se entregar.
A voz agoureira das aves nocturnas, Aos sons doloridos do mar gemebundo, Ai! como respondem suspiros do afflicto, Que sem esperanças reside no mundo!
Teu ar merencorio, ó noite querida, Agrada infinito ao meu coração; Que as tristes ideias, que a mente me occupam, Casar melhor vejo co’a tua soidão.
Emquanto os mais entes, felizes, desfructam O brando repouso que dá-lhes Morpheu, Eu vélo, e medito nas magoas acerbas De que a desventura meus dias encheu.
Só tu testemunhas o pranto de angustia, Que extremo infortunio me faz derramar; Só tu me tens visto da morte invocando O unico allivio, que posso alcançar.
D’est’alma, que pena, tu tens escutado Os prantos que verte, as queixas que exhala; Mas inda não sabes quanto é cruciante A dor insoffrivel, que 'n ella me cála.
Vem, noite, querida de quantos procuram Pungentes angustias no seio occultar; De quantos, queixosos, aspiram somente Poderem bem livres á dor se entregar.
No brando silencio tu sempre has de ver O pranto brotar-me dos olhos cansados; O pranto que aos risos prefiro d’aquelles Que, cégos, se julgam mimosos dos fados.