Versos Portuguese Adélia Josefina de Castro Fonseca A aurora brasileira

Portuguese poem

A aurora brasileira

by (1827–1920)

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Quando tu, luso cantor, Na tua lyra dourada Modulaste com primor Uma linda — madrugada, Porque dizer não quizeste, Que a aurora que descreveste No teu hymno tão gentil, E esse mar de lisa prata, Que os arvoredos retrata, Eram só do meu Brasil?

Porque dizer não havias, Que esse nascer prazenteiro De puros, formosos dias, Era do céu brasileiro? D’este céu abençoado, De bello anil esmaltado Pela mão do Creador; Que ledo nos apresenta Na formosura que ostenta, Um milagre do Senhor?!

Que tem noites tão formosas De prateado luar?! Que possue manhãs de rosas, E tardes.... de arrebatar?! Tu, por acaso, ignoravas Que a madrugada pintavas Da minha terra natal? Ou, — cégo do patrio amor, — Julgaste que esse primor Era do teu Portugal?

Vem, no céu do meu paiz, Ver bella aurora de estio Como se mostra feliz,

Como se mira no rio! Vem vêl-a, mimosa abrindo O transparente véu lindo, Viçosas flôres soltar, E dos olhos lacrimantes Mil per'las, mil diamantes Sobre todas derramar!

Vem ver das tranças formosas, Por leve brisa onduladas, Descerem candidas rosas, Violêtas delicadas! Jamais nesse Portugal O teu sonho divinal Realisado gozaste... Vem; porque só minha terra As maravilhas encerra Do quadro, que debuxaste.

Vem ouvir o harmonioso, O doce canto aflautado Do sabiá mavioso, Sobre o raminho pousado. Vem ver os volateis todos

Festejarem de mil modos, Com folguêdos e cantares, A fagueira madrugada, Que, de flôres adornada, Perfuma os limpidos ares.

Vem contemplar a lindeza D’este Brasil tão jucundo; Vem ver sua natureza, Que é a mais bella do mundo; Vem ver seu sol descoberto, 'Num céu de nuvens deserto, Deslumbrante de fulgores; Vem aqui ver como o Eterno, Até nos dias de inverno, Veste o campo de verdores!

Diz-me, vate lusitano, O céu do Portugal teu E como o americano Anilado, puro céu? Diz-me, si na plaga tua É tão diáphana a lua, Si é tão meiga, tão gentil?

Si brilha em noites tão bellas, Tão opulentas de estrellas, Como as do rico Brasil?

Si o seu raio illuminado, Por sobre um mar transparente, Pelas aguas embalado Se estende tão docemente? Si doura o cume dos montes; Si beija o crystal das fontes Com tanto enlevo e doçura; Si do templo na vidraça Reflecte com tanta graça A face de luz tão pura?

Tens nos prados tanto viço? Nos fructos tanto sabor? Na vida tanto feitiço?... No coração tanto amor?... Vem, ó Bardo, vem asinha Na mimosa patria minha A tu'alma extasiar; 'N este clima brasileiro, Vem sob um céu prazenteiro Nova existencia gozar.

Oh! vem, sublime Poeta, Ver o meu solo natal; Que de Deus a mais dilecta É a terra de Cabral! Vem da minha terra amada Ver a linda madrugada, Ver do céu a perfeição! Vem contemplar uma lua, Que sabe, mais do que a tua, Responder ao coração!