Portuguese poem
À fontinha
by Adélia Josefina de Castro Fonseca (1827–1920)
Porque estás assim queixosa, Qual triste lamentação, Que sobre a campa do morto Solta afflicto coração? Porque suspiras, fontinha, Porque gemes, pobresinha?
Temes que d’esta montanha, Em cuja base murmuras, Algum pedaço, rolando, Turve-te as aguas tão puras? Receias, que um sol ardente Te esgote a clara nascente?
Não; choras o amor-perfeito, Que junto a ti floresceu, E balouçando se via No argenteo espelho teu; Estás saudosa carpindo Esse amor, qu’era tão lindo!...
Em vão sua imagem buscas No teu liquido crystal; O furacão, que arrancou-te O mimoso original, Nem uma folha te deixa, Que minore a tua queixa.
É por isso que, saudosa, Qual triste lamentação, Que sobre a campa do morto Sólta afflicto coração, Assim tu gemes, fontinha, E suspiras, pobresinha.
Acaso possues um’alma, Que lhe conheça o valor, Tu que choras tão sentida
Pela perda d'essa flôr? Si a possues, deves queixar-te; Não pretendo consolar te.
Eu quero só minhas lagrimas Com teus prantos confundir; Quero meus tristes queixumes A teus queixumes unir; Quero comtigo viver, Porque te vejo soffrer.
Quero sentir no meu peito Os echos de tua dôr; Quero suspirar comtigo ; Partilhar teu dissabor, De tua melancolia, Quero beber a poesia.
Com a dôr eu sympathiso, Porque a dôr tambem conheço; Eu sei o que são angustias, E de ti me compadeço; Tambem saudades eu tenho, Que alliar ás tuas venho.
Minha saudade é tão negra, Qual noite tempestuosa; E negra a tua saudade Como véste luctuosa; Ambas teem a côr da sina Que nos coube, tão mofina!...
Eu quero, pois, minhas lagrimas Com teus prantos confundir; Quero meus tristes queixumes A teus queixumes unir; Quero comtigo viver, Porque te vejo soffrer.
O formoso amor-perfeito, Que a teu lado floresceu, Que, tão lindo, reflectia O argenteo espelho teu, Vazio um lugar deixou, Onde a saudade brotou.
Mas não temas que te deixe Esta florinha querida; O proprio tempo que passa,
De tudo extinguindo a vida, Por ella debalde corre; Porque a saudade não morre !
E a saudade que é minha, Como os ais — do soffrimento, — Como o riso é — da ventura, — E — da desgraça—o lamento,
Quando a lousa do sepulchro Meu corpo exangue esconder, Ha de, fiel, a meu lado, Qual na vida florescer.