Versos Portuguese Adélia Josefina de Castro Fonseca A Saudade

Portuguese poem

A Saudade

by (1827–1920)

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Ella foi-se, e com ella foi minh’alma!

Essa casa tão alegre, Quando por ti habitada, Essa da santa virtude Encantadora morada, Hoje é triste como a lousa No cemiterio isolada!

O silencio, que a rodeia, Eu quebro, quando te chamo, Quando invóco o dôce nome D’aquella, que tanto amo; Mas só os echos respondem Ao meu saudoso reclamo!

Contemplando essas paredes Inanimadas e frias, Que a cada instante me lembram As passadas alegrias D’esses — que juntas gozámos — Risonhos, ditosos dias,

Minha profunda saudade Inda mais sinto augmentar:

Meu coração opprimido De dôr parece estalar, Presentindo que o passado Não se possa renovar.

Esse cruel fado imigo, Que de mim te separou, Porque deixou-me uma vida, Que tão infeliz tornou? Oh! maldito seja elle, Que a viver me condemnou!

Oh! maldito seja elle, Que tanto me faz soffrer: Que mudou minha ventura ’N um continuo padecer; Que te arrancou de meus braços, E me deixa inda viver!

De que me serve esta vida, Que levo tão torturada? Como hei de agora soffrel-a De angustias tão repassada?

Ai de mim! como arrastal-a Si me ficou tão pesada!

Si eu possuira a certeza De que vivias feliz, Mais resignada acceitára Lei, que o fado impôr-me quiz Mas tu soffres quanto eu soffro O meu coração m’o diz.

Tu semelhas, minha Elisa, Da rosa o pobre botão, Cujo ramo foi lascado Por furioso tufão, E vai triste emmurchecendo Debruçado para o chão.

E eu o que sou, meu anjo, Senão botão desgraçado, Que pende triste, sem viço, Do pobre ramo lascado? Bem irmãs somos nas dôres; E bem irmão nosso fado.

Eu passo a vida sozinha, Tua ausência a lamentar; A pedir a Deus um dia, Em que te possa abraçar; A curtir uma saudade, Que me não póde matar!