Versos Portuguese António Duarte Gomes Leal *A Sesta Do Senhor Gloria*

Portuguese poem

*A Sesta Do Senhor Gloria*

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É no fim do jantar. Deram tres horas No bom relogio antigo dos avós, E o senhor Gloria pega n'uma noz Com um ar de quem trata com senhoras.

A casa de jantar toda pintada E o estuque cheio d'aves, de paysagens, De nymphas, prados, d'aguas, de boscagens, Tem uma forma antiga e recatada.

D'involta com seus goles de Madeira A senhora digere o seu café; E ao lado, um filho rubido de pé Parece um pregador sobre a cadeira.

No collo da matrona dorme um gato No melhor somno commodo do mundo, Em quanto em baixo um cão grave e profundo, Contempla uns restos que inda estão n'um prato.

O senhor Gloria falla, chocarreiro, Do seu cunhado Aleixo de Miranda; Lá fóra, um papagaio n'um poleiro Diz cousas aos burguezes, da varanda.

Com um ar meio comico e boçal Um sisudo creado atraz, de pé, De vez em quando falla menos mal; --O senhor Gloria aspira o seu café

Muito tempo assim ficam n'esse estado De santa somnolencia e beatitude, Mais que assás conhecido da Virtude Quando tem digerido e bem jantado.

No entanto o senhor Gloria, olhos dormentes, Contempla na parede os bons pastores, Confidentes fieis dos seus amores, --Que outrora hão já sorrido aos seus parentes

Duas pastoras fallam com poesia N'uma vereda d'alamos annosos,-- E isto accorda-lhe os tempos virtuosos Que a hora do jantar era ao meio dia!

Bellos tempos--pensa elle--de virtude! De gloria, amor, coragem, fé ardente, De longas procissões, e de saude, De singelesa e paz--vida contente!

E o senhor Gloria aqui, n'um travesseiro Deita a cabeça, de pensar prostrado; --O papagaio ri no seu poleiro, --E a senhora sorri para o criado.