Versos Portuguese António Duarte Gomes Leal *A Sua Camara*[2]

Portuguese poem

*A Sua Camara*[2]

by

Listen in the reader

No ar calado e bom da camara fechada, Como um ninho d'amor, casto e silencioso, Um grande cravo branco ergue o caule cheiroso, N'uma jarra de jaspe, antiga e cinzelada.

Voam aromas bons no ar tranquillo e molle; Algumas flores vão morrer nas jarras finas, --Elle sereno vê, nas rendas das cortinas, Silencioso morrer na sua gloria o Sol!

Todas morrem ao pé, só elle altivo é bello, No seu vaso de jaspe, entre as demais existe, --Como um rei infeliz n'um ultimo castello, Com seu ar virginal e com seu modo triste!

Cheio de vida ainda, idyllico, ideal, Talvez lamente o amor, na sua jarra d'agua! --Mysteriosa flor!--que caprixosa magoa O virá a pender na haste virginal?!

Talvez lamente o Sol--a luz vermelha viva? O sol que vae morrer--o bello agonisante! Talvez que chore a lua--a lua pensativa! Que lhe venha lavar a alvura soluçante!

Quem foi a branca mão--olympica, divina, A mão macia, ideal--traidora--que o colheu? Que o foi roubar á terra, um dia, e que o prendeu Na fria solidão d'aquella jarra fina?

E foi roubar ao amor, aos cantos, ás folhagens, Á bondade da luz--ás noutes meigas bellas, Exilado do sol, e orphão das paisagens, O cravo virginal--viuvo das estrellas?!

Mysteriosa flor! a sua extranha magoa A ninguem o dirá seu calix pensativo, E a morrer--morrerá, calado, firme, altivo, E nobre como um rei, na sua jarra d'agua!

.......................................... .......................................... ..........................................

Lá fora morre o sol, como um desgosto humano, Voam aromas bons no ar quente e calado; Vae-se esvaindo a luz, e triste, e socegado, Vê-se um jasmin morrer em cima d'um piano.

Nas paredes estão, nas preciosas telas, Pintados menestreis, pastoras e guitarras, Debruçam-se os jasmins nas grades das janellas, E os lyrios, como uns ais, morrem nas finas jarras.

Tudo agonisa ao pé, n'aquella solidão!... --Solidão de mulher distincta e perfumada! Cuja pelle é talvez mais fina que a pomada, E as farinhas d'Italia e as sedas do Industão!...

.......................................... ..........................................

Tudo agonisa ao pé,--só elle altivo e bello, No seu vaso de jaspe entre as demais existe, Como um rei infeliz n'um ultimo castello, Com um ar virginal e com um modo triste!

E no entanto talvez a mystica amorosa, --A noiva a dona d'elle, occulta uma outra magua No morto coração, mais morto que uma rosa, E do que elle amanhã na sua jarra d'agua!