Portuguese poem
A Ventura
by António Joaquim de Castro Feijó (1859–1917)
A Ventura, de vãos e ephemeros sorrisos, Nunca, em alto lavor, Nos meus versos deixou cariatides ou frisos De que ella fôsse o alacre e luzido esculptor.
Trouxe-a um dia, illudida, a minha Noiva, quando No meu lar se installou; A Musa, deslumbrada, emmudeceu, sonhando, E d'amor nunca mais um só verso rimou.
Mas d'essa adoração em que vivia absorta, Um dia, ao despertar, Viu que tinham levado a minha Noiva morta, E d'angustia chorou, na angustia do meu lar.
Chorou... Sempre que a dor nos empolga e sacode Como um arbusto ao vento, Nenhuma forma d'arte em eloquencia pode Egualar a expressão d'um grito ou d'um lamento.
Chorou... E desde então, a Musa dolorida Vive numa anciedade A ouvir a minha dor no seu canto escondida, Mansamente, a chorar, como chora a saudade...