Portuguese poem
A Selva Escura
by António Joaquim de Castro Feijó (1859–1917)
Perdi-me no caminho solitario D'uma floresta immensa e fria... Medrosa ainda, a Noite lívida descia, E o clarão do luar, como um pranto mortuário, Pelas folhas das árvores corria. No silencio da Noite, o silencio da Selva Enchia-se de vozes enigmáticas... E os meus pés vacillavam sobre a relva, Entre as sombras das árvores extácticas. Numa clareira funda, aguas dormentes, Como um lago lunar, tremeluziam Nas lágrimas de luz, altas e ardentes Que das estrellas pálidas caíam. Nem ruido de mar, folhas ou vento... O mystério, porém, da Noite e da Floresta Enchia de terror meu pensamento, Como um sopro boreal que me gelava a testa. Não sei se era visão, filha do Mêdo, Se verdadeira apparição nocturna; Mas da sombra profunda do arvoredo, Que o luar tornava muito mais soturna, Vinham surgindo mysteriosamente Phantasmas espectraes que eu distinguia Através do sudário transparente Como o primeiro alvorecer do dia... E por deante de mim todos passavam, E olhavam-me e choravam... De mágoa ou compaixão,--não sei dizê-lo; Mas tudo o que aos meus olhos evocavam Parecia-me um longo pesadelo... Eram os Sonhos, as Chimeras mortas Na minha morta Phantasia, Que do vasto sepulcro abrindo as portas, Passavam nessa funebre theoria... Projectos, Intenções, Ideias, Planos, --Illusões d'um passado esquecido e desfeito, Na areia que rolou da ampulheta dos annos E que um vento de morte espalhou no meu peito. Era a Noiva feudal esquecida a scismar Na pompa e no esplendor em que o Sonho a envolveu, Trazendo-me nas mãos, todas brancas de luar, Como um tropheu perdido o espadim de Romeu! Illusões juvenis d'odaliscas e fadas, Helena, Laura, Ignez, romanescas e bellas, E tu, Willi immortal das florestas sagradas, Loira d'olhos azues, como duas estrellas! Era a Glória, mas já sem a tuba estridente, Que ingenuamente ouvi pela amplidão vibrar; Era a Ambição, captiva a sua asa fremente, Que tão alto esvoaçou, entre as nuvens e o mar. Era o Orgulho... o Poder... a Riqueza... loucuras, Chimeras juvenis do meu abril risonho, Borboletas azues, larvas escuras Que deslisaram no meu sonho... Todas essas visões, d'aspectos sobrehumanos, Por deante de mim, lentas, passavam... E olhavam-me e choravam, Como espectros de longos desenganos Que os meus olhos das trevas evocavam... E olhavam-me e choravam, Sumindo-se nas sombras da floresta, Aos primeiros clarões da madrugada Como um rumor de festa, Despertavam, partindo em revoada, As aves a cantar. O sol rompia E as derradeiras névoas dissipava... Tudo cantava e ria! Só eu chorava... só eu chorava... Só no meu coração não despontava o dia. Só eu chorava... só eu chorava... Só eu soffria...