Portuguese poem
A Vocação D'Ibrahim
by António Joaquim de Castro Feijó (1859–1917)
Vendo, mudos á Dor, os Idolos grosseiros, Que o oleiro antigo e rude em barro modelava, Ibrahim despedaça os Deuses derradeiros, E as terras de Ur, familia e patria, abandonava.
Só, na noite profunda e num amplo deserto, Sem que o sitio onde está e a estrada reconheça, --Numa nesga de ceu quasi todo encoberto,-- Viu um Astro a luzir sobre a sua cabeça.
E absorto nessa luz que do alto cahia, Como um pressentimento augusto a illuminá-lo, Bradou, cheio da paz que sôbre elle descia: --«Eis o Deus verdadeiro!»--e prostrou-se a adorá-lo.
Mas o Astro immergiu na curva em que fluctua, Quando o Luar rompeu como um vasto luzeiro; E attonito, Ibrahim pensava, olhando a Lua: --«Deus não pode esconder-se! Eis o Deus verdadeiro!»
E outra vez, como chuva em calcinada areia, A paz, ao seu turbado espirito baixara; Parecia-lhe agora, esse luar da Chaldeia, Que tinha uma outra luz, mais ardente e mais clara.
Mas a Lua descreve a orbita marcada E some-se ao primeiro esplendor do arrebol; Borda todo o horizonte uma fimbria doirada, E entre nuvens a arder surge o orbe do Sol.
Como o homem que sae d'um longinquo desterro, E de subito encontra o lar e encontra os seus, Ibrahim mede o abysmo enorme do seu erro, E de joelhos proclama:--«Eis o unico Deus!»--
Mas a tarde descia, e Elle, sempre de rastros, Perdido na abstracção do seu culto fervente, Quando os olhos ergueu já luziam os astros, E do Sol mal se via um clarão no occidente.
Então, no seu assombro, o espirito perplexo, Exalta-se, e da immensa altura a que ascendeu Viu em tudo o que existe apenas o reflexo D'um invisivel Ser que fez a Terra e o Ceu...