Versos Portuguese António Joaquim de Castro Feijó Cabellos Brancos

Portuguese poem

Cabellos Brancos

by (1859–1917)

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Não repares na cor dos meus cabellos Sem ler primeiro Anacreonte; Verás que os sonhos juvenis, mais bellos, Tambem se evolam d'enrugada fronte.

O espirito do Poeta é sempre moço; O Coração nunca envelhece... Basta um sorriso, um nada, um alvoroço, E tudo nelle se illumina e aquece.

Deusas d'eterna graça adolescente, Jamais as Musas desdenharam Da luz que treme incendiando o poente, Dos rouxinoes que ao pôr do sol cantaram.

Fina e fragil vergontea melindrosa, Que foi na ceifa abandonada, Ruth, apesar de moça e de formosa, Nos braços de Booz dorme encantada.

Quantas flores d'inédita fragrancia Em mãos provectas vão abrindo... Abisag, ao sair quasi da infancia, No leito de David entrou sorrindo.

E d'esse beijo, inverno e primavera, D'esse connubio, oh maravilha! Como se a ruina fecundasse a hera, Veio á luz uma estrella, que ainda brilha.

Esculpturaes patricias, d'olhos ledos, Quem as lembrara, se deixassem Que mãos obscuras, mercenários dedos, A velhice d'Horacio engrinaldassem?

Quantos nomes illustres! quantos casos! Mas que direi mais eloquente? Não ha dias tão pallidos, e occasos Como explosões d'uma cratera ardente?

Não repares na côr dos meus cabellos; A branda luz que nelles arde, Como o poente, das nuvens faz castellos, Tinge d'alva o crepusculo da tarde...

Muita vez os cabellos embranquecem Na dor d'horriveis soffrimentos... Não são os annos que nos envelhecem; «São certas horas más, certos momentos...»