Portuguese poem
Beatitude Amarga
by António Joaquim de Castro Feijó (1859–1917)
Esqueço-me a admirar os teus olhos profundos E imagino que estou sentado á beira mar: Vejo as ondas a erguer-se, archipelagos, mundos, Naufragios, temporais, mar de leite e de luar...
Medroso, o coração tenta fugir, mas treme: O abysmo attrae o abysmo! E desvairadamente, Despenha-se no mar, como um barco sem leme, D'onda em onda, á mercê do vento e da corrente.
Vejo-o ainda um momento a esconder-se na bruma, E sinto uma impressão d'angustia e de pesar, --Seguindo anciosamente o seu rasto d'espuma-- Por suppor que partiu para não mais voltar!
Mas tu falas, e, ao som da tua voz, desperto; Volto a mim d'esse estranho sonho, a alma perdida, Com o vago terror e o pensamento incerto Do naufrago que á praia ainda chegou com vida.