Portuguese poem
A Lenda Dos Cysnes
by António Joaquim de Castro Feijó (1859–1917)
Da praia longinqua, na areia doirada, O Cysne pensava, fitando a Alvorada:
--«Que immensa ventura, na minha mudez, Se dado me fôsse cantar uma vez!»
--«Meu canto seria, na luz do arrebol, Dos hymnos mais altos á gloria do Sol...»
Não é das gaivotas e gansos do lago O canto que em sonhos ardentes afago;
É quando nos bosques as aves escuto Que a inveja confrange minh'alma de luto.
Se a Aurora se lança do cume dos montes, Até d'alegria murmuram as fontes;
Só eu, passeando o meu tedio supremo, Nem rio, nem choro, nem canto, nem gemo.
Oh Sol, que já vejo surgindo do Mar, Tem dó de quem, mudo, não pode cantar!»--
E o Cysne, em silencio, chorava, escutando A orchestra das aves que passam em bando.
Das aguas rompia a quadriga d'Apollo, E o pobre a cabeça escondia no collo...
Mas Phebo detem-se nas nuvens ao vê-lo, Com feixes de raios no fulvo cabello,
E diz-lhe, sorrindo, n'um halo de fogo: --«No Olympo sagrado ouviu-se o teu rogo...»--
E nesse momento a Lyra Sem Par, Da mão luminosa deixou resvalar...
O Cysne, orgulhoso da graça divina, Da Lyra d'Apollo as cordas afina,
E rompe cantando... Calaram-se as fontes, Calaram-se as aves... As urzes dos montes
Tremiam de goso a ouvi-lo cantar... E o vento sonhava na espuma do Mar.
O Cysne cantava, tirando da Lyra Um hymno que nunca na terra se ouvira;
Não pára, nem sente, na sua emoção, Que a vida lhe foge naquella canção.
Mas quando, entre nuvens, a tarde cahia No enlevo do canto que a essa hora gemia,
E Apollo no seio de Thetis desceu, O pobre do Cysne, cantando, morreu...
Gemeram as aves; choraram as fontes; Torceu-se nas hastes a giesta dos montes,
E o mar soluçava na tarde sombria, Que o manto de luto com astros tecia.
Sollicita espera-o, das aguas á beira, Do Cysne, já morto, fiel companheira;
Espera que o Esposo de prompto regresse, Mas treme e suspira, que a Noite já desce...
As aguas luzentes parecem-lhe, ao vê-las, Um panno d'enterro picado d'estrellas.
Então, no seu luto, sentindo que morre, Oceanos e praias distantes percorre;
Mergulha nas aguas, colleia nas ondas, Espreita as galeras de velas redondas,
Que ao longe parece que vão a voar... E o Cysne não volta, não pode voltar!
Chorosa viuva, nas aguas deslisa, Levada na fresca salsugem da brisa...
No seu abondono nem sente canseira; Caminha, caminha, fiel companheira,
Chorando o perdido, desfeito casal... Tão funda era a mágoa, tão grande o seu mal,
Que o peito sentindo de dor estalar, --De dor e d'angustia começa a cantar!
E canta com tanta ternura e paixão, Que a Vida lhe foge naquella canção.
As aves despertam; calaram-se as fontes; Nas hastes tremiam as urzes dos montes;
A Lua escutava; detinha-se a Aurora, E as vagas gemiam no vento que chora...
Na terra, no espaço, nos astros, no ceu, Mais alta harmonia ninguem concebeu;
E os Deuses recebem, ouvindo-a, a chorar, A alma do Cysne que expira a cantar...
Desde esse momento, no Olympo onde entraram, Em honra dos Cysnes que tanto se amaram,
Das almas que foram leaes e sinceras, Se Venus se mostra, surgindo da bruma, São elles que tiram, nas altas espheras, A concha de nácar, cercada de espuma...