Portuguese poem
A Armadura
by António Joaquim de Castro Feijó (1859–1917)
Desenganos, traições, combates, soffrimentos, Numa vida já longa accumulados, vão --Como sobre um paúl continuos sedimentos, Pouco a pouco envolvendo em cinza o coração.
E a cinza com o tempo attinge uma espessura, Que nem os mais crueis desesperos abalam; É como tenebrosa, impavida armadura Ou coiraça de bronze em que os golpes resvalam.
Impermeavel da Inveja á peçonhenta bava, Nella a Calumnia embota os seus dentes hervados; Não ha braço que possa amolgá-la, nem clava Que nesse duro arnez se não faça em bocados.
E no entanto, através d'essas rijas camadas, Ou rompendo por entre as junctas da armadura, Escorrem muita vez gotas ensanguentadas Que o coração verteu d'alguma chaga obscura...