Portuguese poem
A Aguia Prisioneira
by António Joaquim de Castro Feijó (1859–1917)
Aguia soberba a quem mão perversa d'escravo, Num ocio de tyranno, os olhos arrancou! E, a gosar d'esse feito o delicioso travo, Da jaula hedionda a férrea porta escancarou...
A aguia, aturdida e cega, a principio esvoaçava Rente ao chão, e a roçar com as asas na terra, Sem saber d'onde vinha a dor que a lancinava, Nem que mysterio aquella obscuridade encerra.
Mas na ancia de luz que a devora sem treguas, Cobra o animo, e erguendo o vôo, a tudo alheia, Lança-se para o azul, sobe leguas e leguas, Sem poder dissipar a treva que a rodeia.
E tão alto subiu no seu vôo desfeito, Que de repente, não podendo respirar, Sentiu que lhe estalava o coração no peito, E veio aos pés do escravo exanime rolar...
Alma humana! Aguia cega em perpetua anciedade, Por mais alto que eleve o desvairado arrojo, Quando julga atingir a suprema verdade, No pó, d'onde partiu, cae outra vez de rojo!