Portuguese poem
Amor por Anexins
by Artur de Azevedo (1855–1908)
Eu que, por gosto, perdido Tenho casamentos mil, Com mais de um belo marido, Garboso, rico e gentil, De um velho agora a proposta, Meu Deus! devia aceitar? Demais um velho que gosta De assim tão jarreta andar! Nada! nada! Não me agrada! Quero um marido melhor! É bem mau não ser casada, Mas malcasada é pior.
INÊS — Sem desgosto viveremos, Seremos ricos, talvez; Muitos morgados teremos...
ISAÍAS — Mas um só de cada vez... (Zangado.) A faceira Talvez convidar-me queira Para padrinho de algum!
Louro dinheiro, soberano esplêndido, Força, Direito, Rei dos reis, Razão. Que ao trono teu auriluzente e fúlgido Meus pobres hinos proclamar-te vão.
Do teu poder universal, enérgico, Ninguém se atreve a duvidar! Ninguém! Rígida mola desta imensa máquina, Fácil conduto para o eterno bem!
Aos teus acenos, Deus antigo e déspota, Aos teus acenos, Deus moderno e bom, Caem virtudes e se exaltam vícios! Todos te almejam, precioso dom!
Inda hás de ser o derradeiro ídolo, Inda hás de ser a só religião, Louro dinheiro, soberano esplêndido, Força, Direito, Rei dos reis, Razão!...
Hei sido um gato-sapato; Preciso do casamento! O maldito celibato Não é viver, é tormento.
Quero honesta rapariga Entre as belas procurar, Muito embora o mundo diga: Quem já andou não tem pra andar...
A existência de casado Talvez venturas me traga, Se diz verdade o ditado: Amor com amor se paga.
Se eu for constante e fervente, Ela tudo isso será; Se eu amá-la eternamente, Ela também me amará!
Eu escravo e a esposa escrava, Viveremos sem desgosto; Uma mão a outra lava E ambas lavam o rosto!...
Antes que daqui nos vamos, Inês vos dirá quais são Os votos que alimentamos No fundo do coração.
INÊS — Os votos que neste instante Fazemos nestes confins (Deita a mão sobre o coração.) É que nos ameis bastante Embora por anexins.
AMBOS — Muitas palmas esperamos De vós: Metade para o autor, metade para nós.