Portuguese poem
Angelina
by Auta de Souza (1876–1901)
Voaste, meiga creança, Tão feiticeira e mimosa, Como um riso de esperança, Como uma folha de rosa.
E’ triste morrer no fim De uma manhã de esplendores... A fronte occultar, assim, N’uma grinalda de flores.
E sentir, por entre a dor Da derradeira agonia, De mãe um beijo de amor Roçar a fronte já fria...
Quando n’um suspiro leve, Est’alma que o corpo encerra, — Como uma pomba de neve A desprender-se da terra; —
N’um vôo suave e franco Fugiu para o Céo de anil... Vestiram-te então de branco, Como uma noiva gentil.
No setineo caixãosinho, Mais puro que as alvoradas, Depuzeram teu corpinho, Entre as cambraias nevadas.
Ahi, no funereo leito, Toda coberta de rosas, Tendo cruzadas ao peito Duas mãosinhas formosas;
Pareces um anjo santo, Envolto em gélido véo, Transpondo azulado manto, Como em procura do Céo.
Eu sigo-te o vôo alado, Pela esphera diamantina, O’ meu anjo immaculado, O’ minha santa Angelina!