Portuguese poem
Versos à Infância
by Cruz e Sousa (1861–1898)
I Nos roseirais, ao vir da madrugada, Desabrocham no val todas as rosas, Nos galhos cheios de uma luz doirada, Meigas e frescas, rubras, perfumosas, Nos roseirais, ao vir da madrugada.
Como em bocas cheirosas e vermelhas Pousam beijos de amor e de ventura, O mel lhe sugam todas as abelhas Pousando em cima da corola pura Como em bocas cheirosas e vermelhas.
Desde os campos, o bosque, até aos montes Tudo renasce num jardim de flores; E pelo azul do céu, nos horizontes, Há os mais vivos, raros esplendores, Desde os campos, o bosque, até aos montes.
Pelos ninhos sonoros, delicados, Cantam e trinam muitos passarinhos Nos altos arvoredos enflorados, A margem verdejante dos calminhos, Pelos ninhos sonoros, delicados.
As borboletas brancas e amarelas, Azuis, cor de ouro, cor de prata e brasa, Leves, ligeiras, tênues e singelas, Abrem a fine talagarça da asa, As borboletas brancas e amarelas.
Tudo no val acorda de desejos À musica dos cantos mais risonhos; E as aves soltas, peregrinos beijos, Dizem, cantando, que através de sonhos Tudo no val acorda de desejos.
II Na alma da infância, tal e qual roseiras, Abrem festões de límpida fragrância Os sonhos e as quimeras passageiras Que são mais próprias do vergel da infância, Na alma da infância, tal e qual roseiras.
O pequenino coração ditoso Canta canções de uma ave pequenina; E é um encanto ver assim radioso No peito de uma cândida menina O pequenino coração ditoso.
A existência de sol das criancinhas Lembra um pomar de frutas bem serenas, Por onde os colibris e as andorinhas Gozam amores sacudindo as penas, A existência de sol das criancinhas.
Não sei dizer se adore mais crianças Ou mais também as flores de um arbusto; Nessas tão puras, castas semelhanças Eu, para ser bem carinhoso e justo, Não sei dizer se adore mais crianças.