Versos Portuguese Cruz e Sousa Versos

Portuguese poem

Versos

by (1861–1898)

Listen in the reader

Bravo, prole bendita Pois à glória infinita O lutar vos conduz! É assim — trabalhando Sempre e sempre estudando Que se alcança mais luz!

Contemplai estas flores Estes tantos lavores Contemplai o painel! Repetindo orgulhosos Estes feitos briosos São dum belo pincel!

Eia, jovens, avante! Ser artista é brilhante, Trabalhar é uma lei! Não são só os c’roados Que merecem em brados Ter as honras de rei!

O artista qu'é pobre É tão rico, é tão nobre Qual potente césar! E a glória bem cedo Lhe murmura o segredo — És artista — és sem par!

Não temais os pampeiros Sois gentis brasileiros Deveis pois progredir! Quem vos traça na história Vossa augusta memória É um deus — O Porvir!

Levantai-vos potentes Altanados, ingentes E fazei-vos Criseus! Só quem pode vergar-vos E pensar obumbrar-vos Mais ninguém — é só Deus!

Não fiqueis ignavos Que o futuro dá bravos Vos dizendo — estudai! Sois humanos — portanto Se há de trevas um manto Apressai-vos, rasgai!

Nossa pátria querida Necessita mais vida, Necessita crescer! É preciso contudo Que tenhais como escudo Quem vos mostra o saber!

E de obreiros altivos, Que sereis redivivos Que sereis imortais, Achareis vossos nomes Vossos grandes renomes Nas mansões divinais!

Perdoai-me estas flores Que tão murchas, sem cores Nada podem valer! São ofertas sinceras Arrancadas deveras Para vir vos trazer!

Palinuros — à frente Esse trilho é ridente Dás-vos honra, louvor! Quem o braço vos guia Nunca, nunca entibia — — É artista... e pintor!

É a vós a quem falo E se hoje eu não calo Estas vãs expressões! É que a louca alegria Em minh'alma irradia Com fulgentes clarões!

O trabalho enobrece Glorifica, engrandece Aos artistas quais vós! Que zombando da sorte Têm a tela por norte Os pincéis por faróis!

Eia! nessa carreira Qual a nau sobranceira Indo o mar a fender! Quando há negros abrolhos, Mil cachopos, escolhos É mais belo o vencer!

Se o lutar é dos grandes Que são gêmeos dos Andes Que não sabem tombar! Colhereis uma glória Mais suprema memória, Trabalhando, a lutar!

Deus, o Deus sublimado Disse ao homem num brado, Da sidérea mansão! — Vai depressa arrimar-te Aos arcanos da arte, Que terás um bordão!

Onde há braços d’artista E seu ponto de vista Decepar escarcéus! E seu gládio seguro Vai cavar o futuro Vai rasgar negros véus!

E lá quando os vindouros Vos c'roarem de louros Vos erguerem docel! Bradarão altaneiros: — Exultai brasileiros, Ressurgiu Rafael!

Não temais os insanos, Insensatos humanos Bajulantes e maus! Trabalhai muito embora! Há de vir uma aurora P’ra arrancá-los do caos!

Away, estudantes Sois vergônteas pujantes A lauréis tendes jus! Caminhai com coragem, Qu’esta é a romagem Dos apóstolos da luz!!!...