Portuguese poem
A um poeta
by Francisca Júlia (1871–1920)
Poeta, quando te leio, a angustia dolorida Que te mina a existencia e que em teu peito impera, Faz-me tambem soffrer, d’alma se me apodera, Como si da minh’alma ella fosse nascida.
Sinto o que sentes: ora a lagrima sincera Que foi pela saudade ou pelo amor vertida, Ora a magua que habita em tua alma, — guarida Onde a negra legião das maguas se agglomera.
Não ha nos versos teus um sentimento alheio A esse teu coração macerado de fraguas; Ha nelles ora o suave e módulo gorgeio
Das aves, ora a queixa harmonica das aguas... Leio os teus versos; e, em minh’alma, quando os leio, Vae gemendo, em surdina, a musica das maguas...