Portuguese poem
Á noite
by Francisca Júlia (1871–1920)
Eis-me a pensar, emquato a noite envolve a terra; Olhos fitos no vacuo, a amiga penna em pouso. Eis-me, pois a pensar... De antro em antro, de serra Em serra, echoa, longo, um requiem doloroso.
No alto uma estrella triste as palpebras descerra, Lançando, noite a dentro, o claro olhar piedoso. A alma das sombras dorme; e pelos ares erra Um morbido languor de calma e de repouso...
Em noite escura assim, de repouso e de calma, É que a alma vive e a dor exulta, ambas unidas, A alma cheia de dor, a dor tão cheia de alma...
É que a alma se abandona ao sabor dos enganos, Antegosando já chimeras presentidas Que, mais tarde, hão de vir com o decorrer dos annos.