Portuguese poem
A quem não causa desmaio
by Gregório de Matos (1636–1696)
A quem não causa desmaio esta querela recente, as Mulatas na corrente em falta do Papagaio? eu de verdade não caio nesta justiça em rigor: ora este tal prendedor quem seria, ou quem será? Mangará.
Diz, que em tudo tinha graça a Jandaia abrindo a boca, dizendo já toca toca, meu Papagaio, quem passa? Mangará, que vai à caça: porém na presente perda passará a beber da merda, que não faltará, quem vá, Mangará.
As Mulatas no seu mal vão disfarçando a paixão, pois lhes deu uma prisão o Papagaio Real: diz, que para Portugal lindamente dava o pé, mas uma articula, que o contrário provará Mangará.
Provará, que ele gostara, e que não satisfizera, e muitas cousas dissera, se o Papagaio falara: que o Capitão intentara pagar-lhe em bens de raiz, pois sendo Mangará quis transfigurar-se em cará Mangará
Pondo-se o pleito em julgado dar testemunhas procura com o Primo Rapadura, e um compadre seu melado: mas há de ficar borrado como o tal Primo ficou, quando a Mulata o purgou naquele triste aracá Mangará.
Na gaiola apassarada, onde as duas pobres vejo, a primeira entrou sem pejo, mas a segunda pejada: arrebentou de embuchada um presozinho pequeno, que criado com veneno prisões não estranhará, Mangará.
Todo o povo, que isto vê, pergunta em seu desabono, não ao Papagaio, ao dono, que casta de pássaro é; eu por me fazer mercê, dou o sentido cabal, e um contrafeito asnaval empenado em Pirajá Mangará.