Portuguese poem
A quem não dá aos fiéis
by Gregório de Matos (1636–1696)
A quem não dá aos fiéis perdão, se lhe há de outorgar, eu hoje vos hei de dar, pedindo me perdoeis: dou-vos, o que mais quereis, e o que pedis por favor, que quando chega um Senhor a pedir, por não mandar, mal lhe podia eu faltar cuma sátira em louvor.
Não fui beijar-vos a mão, e dar-vos a bem chegada, porque nessa alta morada nunca tive introdução: até agora a indignação não quis tão altivo trato, mas hoje é quase distrato, porque em todo mundo inteiro de fidalgo, e de escudeiro são brincos de cão com gato.
Os Fidalgos, e os Senhores faltos de jurisdição fazem tudo, e tudo dão a amigos, e servidores: os que jogam de maiores por sangue, e não por poder fazem jogo de entreter: porque o sangue desigual sempre brota ao natural, e o mando bota a perder.
Perdoai a digressão, porque esta prolixidade é boa luz da verdade, e escusa a sátira então: quando se ofreça ocasião, meu Senhor, de que eu vos veja (na Igreja, ou na rua seja) hei de prender-vos os pés, e estai certo, que essa vez vos não valerá a Igreja.
Estou na minha quintinha, que é chácara soberana, ora comendo a banana, jogando ora a laranjinha: nem vizinho, nem vizinha tenho, porque sempre cansa quem vê tudo, e nada alcança, e na cidade são raros os olhos, que não são claros, se olhos são de vizinhança.
Mas inda que desterrado me tem o fado, e a sorte por um Juiz de má morte, de quem não tenho apelado: é hoje, que sois chegado, Senhor, o tempo, em que apele; fazei, que El-Rei o desvele pagar o serviço meu, pois é bizarro, e só eu não vim muito pago dele.