Versos Portuguese Gregório de Matos Da tua Perada mica

Portuguese poem

Da tua Perada mica

by (1636–1696)

Listen in the reader

Da tua Perada mica não te espantes, que me enoje, porque é força, que a entoje sendo doce de botica: o gosto não se me aplica a uma conserva afamada, e em botes tão redomada, que sempre por ter que almoces, achas para tão maus doces a tutia preparada.

Se tua Tia arganaz te fez essa alcomonia, com colher não ta faria, com espátula ta faz: criaste-te de rapaz co pingue dessas redomas, e hoje tal asco lhe tomas, que tendo uma herança rica hás raízes da botica, contudo não tens, que comas.

Teu juízo é tão confuso, que quando a qualquer cristão lhe entra o uso de rezão, de então lhe perdeste o uso: sempre foste tão obtuso, que já desde estudantete te tinham por um doudete, porque eras visto por alto, na fala falso contralto, na vista fino falsete.

Correndo os anos cresceste, e se dizia em sussurro, que era o teu crescer de burro, pois cresceste, e aborreceste: logo em tudo te meteste, querendo ser eminente nas artes, que estuda a gente, mas deixou-te a tua asnia Abel na filosofia, na poesia inocente.

Deram-te as primeiras linhas versos de tão baixa esfera, que o seu menor erro era serem feitos às Negrinhas: com estas mesmas pretinhas, por mais que te desbatizes, gastaste os bens infelizes do Marquês fino herbolário, porque todo o Boticário é mui rico de raízes.

Sendo um zote tão supino, és tão confiado alvar, que andas por i a pregar geringonças ao divino: pregas como um capuchino, porque essa traça madura um curado te assegura, crendo Sua Senhoria, que a botica te daria as virtudes pare a cura.

Mas ele se acha enganado, porque vê evidentemente, que os botes para um doente são, mas não pare um curado: entraste tao esfaimado a comer do sacrifício, que todo o futuro ofício cantaste sobre fiado, pelo tirar de contado ao dono do benefício.

Nenhuma outra cousa é este andar dos teus alparques, mais que ser Filho de Marques vizinho da Santa Sé: outro da mesma ralé tão Marques, e tão bribante te serve agora de Atlante, porque para conjurer-se, é facil de congregar-se um com outro semelhante.