Portuguese poem
Daqui desta Praia grande
by Gregório de Matos (1636–1696)
Daqui desta Praia grande, Onde à cidade fugindo, conventual das areias entre os mariscos habito: A vós, meu Conde do Prado, a vós, meu Príncipe invicto, Ilustríssimo Mecenas de um Poeta tão indigno. Enfermo de vossa ausência quero curar por escrito sentimentos, e saudades, lágrimas, penas, suspiros. Quero curar-me convosco, porque é discreto aforismo, que a causa das saudades se empenhe para os alívios. Ausentei-me da Cidade, porque esse Povo maldito me pôs em guerra com todos, e aqui vivo em paz comigo. Aqui os dias me não passam, porque o tempo fugitivo, por ver minha solidão, pára em meio do caminho. Graças a Deus, que não vejo neste tão doce retiro hipócritas embusteiros, velhacos entremetidos. Não me entram nesta palhoça visitadores prolixos, políticos enfadonhos, cerimoniosos vadios. Uns néscios, que não dão nada, senão enfado infinito, e querem tirar-me o tempo, que me outorga Jesus Cristo. Visita-me o lavrador sincero, simples, e liso, que entra co'a boca fechada, e sai co queixo caído. E amanhecendo Deus, acordo, e dou de focinhos co sol sacristão dos céus toca aqui, toca ali signos. Dou na varanda um passeio, ouço cantar passarinhos docemente, ao que eu entendo, exceto a letra, e o tonilho. Vou-me logo para a praia, e vendo os alvos seixinhos, de quem as ondas murmuram por mui brancos, e mui limpos: os tomo em minha desgraça por exemplo expresso, e vivo, pois ou por limpo, ou por branco fui na Bahia mofino. Queimada veja eu a terra, onde o torpe idiotismo chama aos entendidos néscios, aos néscios chama entendidos. Queimada veja eu a terra onde em casa, e nos corrilhos os asnos me chamam d'asno, parece cousa de riso. eu sei um clérigo zote parente em grau conhecido destes, que não sabem musa, mau grego, e pior latino: Famoso em cartas, e dados mais que um ladrão de caminhos, regatão de piaçavas, e grande atravessa-milhos: Ambicioso, avarento, das próprias negras arnigo só por fazer a gaudere, o que aos outros custa jimbo. Que se acaso em mim lhe falam, torcendo logo o focinho, ninguém me fale nesse asno, responde com todo o siso. Pois agora (pergunto eu) e Job fora ainda vivo sofrera tanto ao diabo, como eu sofro este percito? Também sei, que um certo Beca o pretório presidindo, onde é salvage em cadeira, me pôs asno de banquinho. Por sinal que eu respondi, a quem me trouxe este aviso, se fosse asno, como eu sou, que mal fora a esse Ministro. Eu era lá em Portugal sábio, discreto, e entendido, Poeta melhor, que alguns, douto como os meus vizinhos. Chegando a esta cidade, logo não fui nada disto: porque o direito entre o torto parece, que anda torcido. Sou um herege, um asnote, mau cristão, pior ministro, mal entendido entre todos, de nenhum bem entendido. Tudo consiste em ventura, que eu sei de muitos delitos mais graves que os meus alguns, porém todos sem castigo. Mas não consiste em ventura, e se o disse, eu me desdigo; pois consiste na ignorância de Idiotas tão supinos. De noite vou tomar fresco, e vejo em seu epiciclo a lua desfeita em quartos como ladrão de caminhos. O que passo as mais das noites, não sei, e somente afirmo, que a noite mais negra, escura em claro a passo dormindo. Faço versos mal limados a uma Moça como um brinco, que ontem foi alvo dos olhos, hoje é negro dos sentidos. Esta é a vida, que passo, e no descanso, em que vivo, me rio dos Reis de Espanha em seu célebre retiro. Se, a quem vive em solidão, chamou beato um gentio, espero em Deus, que hei de ser por beato inda benquisto. Mas aqui, e em toda a parte estou tão oferecido às cousas do vosso gosto, como de vosso serviço.