Portuguese poem
De flores, e pedras finas
by Gregório de Matos (1636–1696)
Já da Primavera entrou a alegre serenidade, com que toda a tempestade do triste inverno acabou: já Saturno declinou nas operações malignas, com influências benignas Júpiter predominante nos promete ano abundante De flores, e pedras finas.
Se destes aspectos tais bem se calcula a figura, teremos grande fartura, não há de haver fome mais: mostras temos, e sinais de um tempo muito abastado: porque bem considerado dele tem o próprio efeito; já vemos, que a seu respeito Floresce, e enriquece o Estado.
Para ser enriquecido este Estado, e florescente, temos a causa patente no Planeta referido: nem se equivoca o sentido no efeito aqui declarado: porque sendo bem notado o estado, como parece, se pelo mais não floresce, Floresce sim pelo Prado.
Pelo Prado flor a flor se vai a terra esmaltando, com que o clima está mostrando temperamento melhor: do Luminar superior por tais influências dignas sendo as pedras, e boninas da terra únicos primores pois se esmalta pelas flores, E enriquece pelas Minas.
Na terra já se exprimentam virações tão temperadas, que as aves determinadas tornar aos ninhos intentam: já não sentem, nem lamentam tempestuosas ruínas, pois com salvas matutinas se mostram tão prazenteiras, que mais parecem caseiras As aves, que peregrinas.
Sua peregrinação influxo foi de Saturno, Planeta sempre noturno, e muito importuno então: todas nessa conjunção seus doces ninhos deixaram, e tanto se recearam do nocivo temporal, que escolhendo o menor mal, Aos montes se retiraram.
Porém tanto que sentiram haver no tempo mudança, sem receio, e sem tardança aos ninhos se reduziram: outros ares advertiram, outra clemência notaram, com que alegres publicaram dos astros os movimentos, e com festivos acentos Nesta manhã já cantaram.
Cantaram para mostrar com repetidas cadências singulares excelências de um Planeta singular: tal doçura no cantar não se ouviu nesta Bahia, ouvindo-se na harmonia modulações tão suaves, que nunca cantaram aves com tão doce melodia.
Cada qual com voz sonora nos mutetes, que cantavam, por mil modos explicavam de todo estado a melhora: cada instante, e cada hora a música mais se ouvia; no Prado resplandecia por modo maravilhoso um lustre tão luminoso que a noite se tornou dia.
Entre as aves modulantes, que este nosso País tem todas cantavam o bem, de que são participantes: dos males, que foram dantes, todas também se queixaram; assim que todas mostraram com alegrias notórias, que começaram as glórias, Porque as penas se acabaram.