Portuguese poem
Deus, que é vosso amigo d'alma
by Gregório de Matos (1636–1696)
Quando o livrinho perdestes lá na mata do botão, Antônio, grande aflição dentro em vossa alma tivestes: e se da dor, que vencestes levastes vitória, e palma, bem se colhe, que em tal calma tal dor, e tal agonia só aliviar-vos podia Deus, que é vosso amigo d'alma.
Fez-vos Deus nessa ocasião visita bem lisonjeira, e por não puxar cadeira, se sentou na vossa mão: foi larga a conversação, que o assunto foi de amor, e porque um Frade menor, (sendo menor que o Menino) era de tal palma digno, Na palma se vos vem pôr.
Convosco o Menino então um jogo, Antônio, jogou: ele a palma vos ganhou, mas vós ganhastes por mão: não jogou entonces não com o seu Servo o Senhor para mostrar, que o favor nasceu da ociosidade, senão por mais majestade Para mostrar, que de amor.
Mostrou, que em quererdes bem a um Deus, a quem imitastes, não só premissas pagastes, mas os dízimos também: e por deixar em refém deste amor a mais pura alma, pois todas deixais em calma, cantam os coros celestes, que porque a palma a Deus destes Só vos levastes a palma.