Versos Portuguese Gregório de Matos Dizem, Senhor Capitão

Portuguese poem

Dizem, Senhor Capitão

by (1636–1696)

Listen in the reader

Dizem, Senhor Capitão, que quando à Palma marchastes, a vossa Eva levastes como Adão, e bom Adão: dizem-me também, que então a esse terreno sagrado da Palma íeis convidado para ver uma comédia, que para vós foi tragédia, pois saístes aleijado.

A Puta com seus extremos vos quis da via torcer, que nós por uma mulher a cabeça, e pés torcemos: todos o mesmo fazemos, e o temos todos à asnice, senão eu, que logo disse, quando o pé se vos entreva, que se Adão se achou com Eva, era força, que caísse.

Vós manquejastes de um pé, e segundo sois Gascão podíeis cantar então "nanja do pernil bofe": tão malato estáveis, que faltastes ao carcereiro quase quase um mês inteiro, até que de importunado fostes a um pau arrimado com figura de embusteiro.

O carcereiro entendia, que estáveis pior, que mal, porque a figura era tal, que o mesmo bordão vos cria: Peralvilho parecia, senhor, o vosso modilho, porém se eu nesse corrilho fora, e cum pau vos cascara, creio, que o pé vos voara, como voou Peralvilho.

De ver-se o pé desmentido tomou tão grande pesar, que por de vós se vingar andou três dias sentido: envergonhado, e corrido de ver, que o desacatais, foi causa de vossos ais, que eu por justos avalio, porque um pé de tanto brio outra vez não desmintais.

Vós sois muito boa preia, e todos sabemos, que desse pé tomastes pé, para não vir à cadeia: mas a parte, que receia, e tem grandíssimo medo, que lhe façais um enredo fez, que fôsseis recolhido, porque para um pé torcido o remédio é estar quedo.