Portuguese poem
O Senhor João Teixeira
by Gregório de Matos (1636–1696)
O Senhor João Teixeira Mendonça de quando em quando na cadeia está purgando humores de ladroeira: a Putaina, que era herdeira universal dos defuntos, perdeu já redoma, e untos, e está já desenganada, que o ladrão mata a porcada, e o Fisco come os presuntos.
Tinha o Fidalgo tostado (como ladrão tão astuto) os bens em lugar enxuto, mas mal acondicionado: estava o barco ancorado, e nisto esteve a ruína, porque a carga era rapina, e deu-nos espanto, e mágoa, de que pela veia d'água se desse naquela mina.
As Almas do Purgatório, como os fardos eram seus, estavam pedindo a Deus cada qual seu envoltório: ouviu Deus o peditório, e com ter tão forte mão em qualquer execução, vendo-as perder por instantes, se ajudou de uns Ajudantes para fazer a prisão.
Foram eles à setia, e dizem, que se prendera, porque tão sôfrego era, que furtava, e não partia: o Tesoureiro esse dia fazia conta de se ir, e a tardança o fez cair e então se lhe ouviu dizer, furtava para esconder, porém não para partir.
Ladrão como mentecapto no profundo do porão, passado como ladrão, e fino como mulato: deram-lhe muito mau trato em o trazer amarrado, sendo que andou como honrado em seguir aquela via, que eu não vi na fidalguia Mendonça sem ter Furtado.
A parentela se ria, que é gente, que aqui negreja, porque lhe causava inveja ver, que lhe dava honraria: alvoroçou-se a Bahia entre admiração, e gozo, porque era caso espantoso, que tomasse sem ser Saulo o caminho de São Paulo um ladrão facinoroso.
Ficou no porto a setia, e o Tesoureiro selvagem chegou, sem fazer viagem a salvamento a enxovia: diz o povo, que fugia por de todo estar quebrado; mas o povo está enganado, porque eu vi o Tesoureiro na cadeia mui inteiro, e mui desavergonhado.
Já dizem as profecias dos homens exp'rimentados, que a quatro dias andados, ou daqui a quatro dias, todas as tesourarias adrede lhas hão de dar, por ser homem singular, que guarda a rigor da lei tanto a fazenda d'EI-Rei, que El-Rei a não pode achar.
E se a justiça lhe deu no rasto por tantas calmas, já disse, que foram almas, que choraram pelo seu: aos Santos (sempre ouvi eu) era seguro o furtar, porque não podem falar; mas d'almas não há fiar-se, que se não podem queixar-se, contudo podem rezar.
Toda a cidade notou, que este Tesoureiro alvar é tão destro no embolsar, que a si mesmo se embolsou: na cadeia se encaixou, que é bolsa dos maus ladrões, e se os doutos cabeções fazem crime de ausentar-se, hei medo, que há de chegar-se do verdugo aos calções.